Era uma noite de terça-feira, monótona como deve ser uma noite de terça-feira, se seguida a regra. Nada fora do previsto: janta, uma conferida no celular e cama. Era a ordem natural dos fatores, nada muito diferente das outras cinquenta terças do ano. Mas Deus (ou sabe-se lá que entidade definiu o sentimento geral das pessoas para cada dia da semana) talvez não soubesse que, às vezes, uma noite de terça é também uma noite de CÔPA. E, com toda certeza, não era uma noite normal. Talvez a Lua Crescente tenha influenciado em algo, em mais uma de suas mil e seiscentas duvidosas influências. Tentar explicar um sentimento é como tentar explicar uma piada: não tem graça.

Os mais ávidos já haviam colocado suas pantufas ao lado da cama e fechado os olhos. Todavia, a Libertadores não premia os que cedo madrugam; muito pelo contrário. Ela é latina, gosta dos que não perdem a esperança em nenhum momento. Os caçadores de grandes epopeias estavam ali, acordados, esperando o fenômeno surgir. Eis que, quinze minutos antes do jogo decisivo pela segunda fase da Copa, a informação pipoca em uma de minhas redes sociais: um time argentino estava em apuros e ainda não estava no estádio para o jogo. Em um instante, os verdadeiros amantes da bola já buscavam informações do paradeiro da trupe castelhana. Chegariam a tempo nossos bravos guerreiros? Seriam eliminados? A Libertadores, amigos, não gosta de perguntas em demasia. Muito menos de respostas óbvias.

Diria Galvón Bueno: Tucumán es Argentina en la Copa Libertadores

Diria “Galvón Bueno”: Tucumán es Argentina en la Copa Libertadores

Como se acompanhassem a chegada de Napoleão à batalha de Waterloo, os canais de esportes e as diversas páginas relacionadas a futebol transmitiam ao vivo a longa jornada do Atlético Tucumán, acelerada por um voo fretado e um ônibus a 130km/h. Eram vídeos e relatos que, se contados a um desinformado, o fariam duvidar das informações a ele repassadas. Com cerca de uma hora de atraso (este permitido pelo El Nacional que, como bom anfitrião, não permitiu que os argentinos fossem eliminados até um dado momento), nossos heróis chegaram ao estádio Olímpico Atahualpa, alentando dentro do ônibus, como bons platinos. Já haviam vencido o tempo – ainda que com um gol irregular. Bastava a eles triunfar diante dos equatorianos.

Como se tudo que aconteceu já não tivesse sido suficiente, a equipe ainda foi obrigada a jogar com o uniforme emprestado da Argentina sub-20, que joga o sul-americano da categoria na cidade, já que suas vestes ficaram em Guayaquil por problemas no despache. Tudo parecia estar roteirizado, mesmo que com uma quantidade um pouco absurda de surrealismo, que faria Dalí questionar sua própria capacidade. Apesar de toda a confusão, quem dominava a peleja em Quito era o Tucumán. O primeiro tempo foi bem administrado pelos visitantes, que jogavam em desvantagem no placar agregado – uma vitória mínima bastava. Empilharam chances até Zampedri, em uma cabeçada que fez a bola beijar os anéis de Saturno, encobrir o goleiro e marcar o gol salvador. Apesar da festa, o tento, reconhecem os sábios, foi apenas a sobremesa de um farto banquete futebolístico. A Libertadores dormiria feliz naquela noite. Seu cônjuge já havia dançado ao lado dela ao som de sua música favorita – provavelmente um tango com exageradas doses de drama. Porque foi uma noite com cara de Libertadores, bem ou mal: varzeana, recheada da maior quantidade de sentimentos possível e intensa.

Todo torneio tem um campeão ao seu final, mas só a Libertadores tem um campeão na segunda fase. A odisseia que contarei aos meus filhos e netos, por mais irônico que possa parecer, ocorreu em uma noite de terça-feira. Convenhamos, eles entenderão que não era uma simples e monótona noite de terça-feira; era noite de Copa.

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Henrique Chaparro

Diretor-geral dos sites QQD e Falando de Premier League. Criou o QQD em 2013 e não parou mais. Torce para Internacional acima de tudo e vai com a cara do Liverpool. No FIFA 17, gosta de jogar clássicos argentinos. Acredita que o rei do futebol é brasileiro.

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