Após três rodadas da Premier League, enfim o Leicester venceu! Os Foxes estrearam perdendo por 2×1 para um Hull City sem técnico, e com apenas dois profissionais no banco de reservas, e na partida seguinte empataram sem gols com o atual vice campeão Arsenal. Nesse sábado, o triunfo por 2×1 contra o Swansea aliviou a má largada do azarão na Premier, e em conjunto com o sorteio favorável nos grupos da Champions League serviu para renovar as esperanças de que o Leicester pode sim surpreender novamente.

A pré-temporada, porém, deixou claro que a temporada seria complicada. O tailandês Vichai, dono do clube, se conteve no mercado de transferências, mesmo lidando com premiações astronômicas graças ao título, como os 120 milhões de Euros relativos a cota televisiva – 27 milhões além da última temporada. A balança comercial dos Foxes é equilibrada, as vendas do volante Kanté, exímio desarmador, e do ponta Kramaric praticamente pagam as chegadas do atacante Musa, de Mendy, que vem para substituir Kanté, do meia atacante Kapustka e do goleiro Zieler – hoje o clube está em negociação avançada com o meia argelino Slimani, mas houve nova recusa por parte do jogador do Sporting.

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Musa é a principal contratação do Leicester para 2016/17

Até o momento o maior mérito de Vichai é segurar os craques Mahrez e Vardy, assediados por Barcelona e Arsenal, respectivamente, mas o clube não demonstra mais a solidez estrutural que foi característica na campanha vitoriosa. Os foxes fizeram 4 amistosos nessa pré-temporada, uma vitória contra o Oxford United (terceira divisão inglesa) por 2×1, um empate por um gol com o Celtic (o Leicester venceu o jogo na disputa de pênaltis), e duas derrotas para Barcelona (4×2) e PSG (4×0). No primeiro jogo oficial da temporada, contra o United, pela Community Shield, novo tropeço, 2×1 para os Red Devils.

A história recente do futebol aponta que existe apenas uma coisa mais improvável que ver uma zebra campeã: vê-la repetir o feito na temporada seguinte. Nas últimas décadas tivemos vários exemplos do quão verídica é essa afirmação, então que tal recordar alguns deles?

BLACKBURN ROVERS – 1994/95

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Pouco menos de três anos separam o título azul e branco dos playoffs na segunda divisão para a posterior quebra de 81 anos de jejum sem vencer a Premier League. Meteoricamente, o Blackburn (re)ascendeu no futebol inglês.

Em 1991/92 o clube conseguiu a última vaga para disputa dos playoffs, e carimbou o retorno à elite após bater, curiosamente, o Leicester City na final por 1×0. No ano seguinte, desprezaram a sina de recém-promovido e terminaram na 4ª posição. Em 1993/94 o Blackburn continuou crescendo, a vaga para a UEFA Cup (modelo antigo da Euro League) veio junto com o vice-campeonato alcançado, oito pontos os separaram da taça que o Manchester United levantou.

Azar nas Copas, sorte na Liga. Essa foi a máxima do Blackburn para a fatídica temporada 1994/95. Ao fim de Janeiro o clube já estava eliminado de todas as três Copas que disputava, o que lhes permitiu concentrar, ainda mais, na Premier League. Com apenas 2 vitórias nas últimas 5 rodadas, os Rovers quase deixaram o título escapar. Derrotados pelo Liverpool (4º) na última rodada, os azarões precisavam torcer para que o West Ham (14°) não perdesse para o vice United para serem campeões, o empate por 1×1 ao fim da partida, enfim, decretou o milagre azul e branco.

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Alan Shearer foi artilheiro e craque do time naquele ano

Para defender o título em 1995/96 o Blackburn contou com o grande desfalque do técnico Kenny Dalgish, que estava durante toda a ascensão do clube, e foi promovido para o cargo de diretor, dando espaço para Ray Harford no comando do clube. O azar nas Copas se repetiu, em meados de janeiro o clube só tinha a Premier para disputar, novamente. Com participação pífia na Liga dos Campeões os azuis e brancos foram lanterna com meros quatro pontos num grupo fácil, com Spartak Moscou, Legia Varsóvia e Rosenborg. Na Premier League acabaram em um tedioso 7º lugar, pior posição desde o retorno a elite, e malmente disputaram vaga em competições europeias já que passaram apenas uma rodada na zona de classificação, além de terem iniciado a competição flertando com a zona de rebaixamento.

KAISERSLAUTERN – 1997/98

KAISERSLAUTERN, GERMANY - MAY 02: FUSSBALL: 1. BUNDESLIGA 97/98 KAISERSLAUTERN - WOLFSBURG 4:0 am 02.05.98, KAISERSLAUTERN DEUTSCHER MEISTER 1998/TEAM und Trainer Ottto REHHAGEL (Photo by Bongarts/Getty Images)

O ano de 1996 talvez seja o ano mais triste da história dos tradicionais diabos vermelhos alemães, já que pela primeira vez desde a criação da Bundesliga, em 1963, o clube foi rebaixado para a segunda divisão. Como é de costume, times habituados com a elite não duram muito nas ligas inferiores, e o Kaiserslautern, com sua campanha sólida, foi campeão sem dificuldades, com 10 pontos de vantagem para o vice Wolfsburg, carimbando o retorno a elite.

Buscar permanência na Bundesliga é o objetivo primordial de qualquer clube recém promovido. O Wolfsburg e o Hertha (3° colocado na segunda divisão) sabiam disso, e, com dificuldades, conseguiram se manter na elite, com três e cinco pontos a mais que o primeiro rebaixado, respectivamente. Entretanto os diabos vermelhos faziam questão de apagar essas obscuras últimas temporadas de sua história, e disputaram o campeonato com a mesma determinação que tiveram em 1990/91, quando foram campeões da Bundesliga pela primeira vez.

A edição 1997/98 da Bundesliga prometia chamar a atenção, o atual campeão Bayern de Munique estava formando uma equipe extremamente qualificada que na temporada seguinte seria vice-campeã da Champions, além do então detentor da orelhuda, o Borussia Dortmund, que nessa temporada chegaria até a semifinal da competição. É possível que um recém promovido sonhe alto numa liga de tão elevado nível de competitividade?

A resposta é não, mas o Kaiserslautern fez o impossível: repetiu exatamente o mesmo número de vitórias, empates e derrotas da segunda divisão, encerrando o campeonato com 68 pontos, dois a mais que o Bayern de Munique e se sagraram bicampeões da Bundesliga. Já o Borussia Dortmund teve que se contentar com uma sonolenta 10ª posição.

A lógica, até então nocauteada, deu o ar da graça novamente na temporada 1998/99. Na nona rodada o campeão alemão reencontrou o Bayern de Munique, na Allianz Arena, na edição passada os azarões os venceram nas duas partidas disputadas, e queriam mostrar resistência na defesa do título. Entretanto, o placar de 4×0 para os mandantes ao fim do jogo deu um choque de realidade e anunciou qual seria o tom da temporada dali em diante.

Na Champions, os diabos vermelhos foram líderes de sua chave, que tinha Benfica, PSV e Helsink, ficando com a única vaga do grupo para a próxima fase. O sorteio das quartas de final, porém, lhes foi indigesto, colocando-os frente a frente com o Bayern de Munique, e a história da Bundesliga se repetiu, o Kaiserslautern deu adeus após derrotas por 2×0 e 4×0 para os bávaros.

De volta a Alemanha, os diabos vermelhos amagaram uma eliminação precoce na Copa da Alemanha, ainda na segunda fase, enquanto o Bayern de Munique (como era de se esperar) foi campeão da liga, com simplórios 15 pontos de vantagem para o Leverkusen. O Kaiserslautern, por sua vez, conseguiu apenas a vaga para a UEFA Cup, terminando na 5ª posição.

HELLAS VERONA – 1984/85

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Readmitido na elite na temporada 1982/83 após se sagrar campeão da Série B, o modesto Hellas Verona já parecia ter alcançado o máximo ainda em sua reestreia na elite, quando conquistaram vaga na UEFA Cup através da 4ª posição na liga. Na edição seguinte, porém, o Hellas não conseguiu repetir a boa campanha, apesar de não ter passado sustos na sua 6ª colocação. Se alguém estava espantado com a ascensão repentina do clube, certamente esfriou as expectativas em 1983/84.

Eis que, numa temporada imponente, com apenas duas derrotas nas 30 partidas da Série A, o Hellas toma para si o posto mais alto da tabela, e se sagra, de forma inédita, após 82 anos de fundação, campeão italiano! A façanha quase não ocorreu devido ao fraco desempenho na reta final, onde conquistaram apenas 6 dos últimos 14 pontos disputados (a vitória valia apenas dois pontos na época), cerca de 42% de aproveitamento. Ao fim do torneio, porém, ainda haviam 4 pontos os separando do vice Torino.

Classificados para a Champions, os azarões iniciaram a busca pela orelhuda com consistência, eliminaram o PAOK por 5×2 no agregado, e tiveram pela frente a então campeã e conterrânea Juventus, a qual haviam vencido por 2×0 no primeiro turno quando se sagraram campeões e empataram jogando fora, combinação boa o suficiente para classifica-los. A primeira partida teve o Hellas como mandante, e a vaga permaneceu em aberto após esse confronto sem gols. No jogo de volta não teve como segurar a Velha Senhora, 2×0 para os mandantes e fim do sonho europeu.

Se a Juventus não conseguiu defender o título continental, tratou de arrematar o campeonato italiano. O Hellas, entretanto, não parecia muito esperançoso em repetir a dose do inacreditável e retornou as partes mais modestas da tabela, a qual estão acostumados, dessa vez na 10ª posição.

 


Os clubes que nessa lista figuraram hoje raramente viram manchete, sequer amedrontam os grandes locais e, muitas vezes, alternam entre promoções e rebaixamentos, sem campanhas de muito brilho. Será o Leicester City parte dessa lista no futuro, ou os Foxes podem cavar uma vaga entre os grandes da terra da Rainha? Ou melhor, será que ufologia seguirá como uma ciência incerta ou veremos um ET descer em Londres, como brincou Ranieri sobre a possibilidade de conseguir um bicampeonato… Mas o mesmo Ranieri disse, ainda na segunda rodada da última temporada, que o foco era a fuga do rebaixamento, já que o título era impossível. Ele errou uma vez, será que vai errar de novo?

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Aos 3 anos "escolhi" meu clube do coração num sorteio, e sigo com ele até hoje, aprendi a amar o futebol aos 8 anos, com a Copa do Mundo de 2006, onde eu fingia torcer pra Argentina mas chorei com o gol de Henry, a partir daí comecei a trocar os desenhos infantis por reprises do campeonato espanhol, e hoje escrevo as histórias desse esporte na QQD.

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