Após quase três semanas de muitos jogos e disputas, mais uma edição de Jogos Olímpicos chega ao seu fim, o Rio de Janeiro que acostumou-se a viver seus dias como “centro do mundo”, despede-se dos jogos. Neste período, ocorreram conquistas sensacionais, momentos marcantes e disputas de tirar o fôlego, diversos países mostraram sua cara, inclusive o Brasil, que mostrou também sua casa, a melhor campanha brasileira em Jogos Olímpicos ocorreu em 2016, o país sede superou seus números antigos e conseguiu bater seu recorde olímpico.

No Rio de Janeiro, o Brasil superou a campanha de Atenas/2004 – 5 medalhas de ouro e 16ª colocação – ao conquistar 7 medalhas douradas e terminar no 13º lugar, também superou Londres/2012 – 17 medalhas conquistadas – ao garantir 19 medalhas, entre elas sete de ouro, seis de prata e seis de bronze. As medalhas foram bem distribuídas, 12 modalidades nacionais subiram ao pódio e foram divididas da seguinte maneira, conquistando o bronze estiveram Rafael Silva (Judô/+100kg), Mayra Aguiar (Judô/-78kg), Isaquias Queiroz (Canoagem Velocidade/200m), Arthur Nory (Ginástica Artística/Solo), Poliana Okimoto (Maratona Aquática) e Maicon Siqueira (Taekwondo/+80kg), saíram com a prata Ágatha e Bárbara (Vôlei de Praia), Felipe Wu (Tiro Esportivo), Diego Hypólito (Ginástica Artística/Solo), Arthur Zanetti (Ginástica Artística/Argolas), além de Isaquias Queiroz que garantiu mais duas pratas na canoagem e tornou-se o maior atleta brasileiro em uma única edição de Jogos Olímpicos, uma nos 1.000 metros individual e outro nos 1.000 metros em dupla ao lado do também medalhista Erlon Silva.

Isaquias Queiroz tornou-se o maior brasileiro em uma única edição de Jogos Olímpicos

Isaquias Queiroz tornou-se o maior brasileiro em uma única edição de Jogos Olímpicos

Já as medalhas de ouro foram as mais vencidas por brasileiros, o ouro de Rafaela Silva (Judô/-57kg) foi simbólico, após a eliminação em Londres/2012, a judoca deu a volta por cima e conquistou o ouro em sua cidade natal, mulher, negra e que saiu de uma comunidade pobre para conquistar o mundo. No salto com vara, outra grande história, Thiago Braz da Silva, ignorado por – praticamente – todo o país, campeão em uma modalidade inexistente no Brasil, ouro no salto com vara, certamente a mais improvável das medalhas nacionais, além disso, bateu o recorde olímpicos e saltou 10 centímetros a mais do que já havia conseguido fazer.

No boxe, o primeiro ouro olímpico veio com Robson Conceição, também pouco conhecido pelo público nacional, o baiano desbancou os líderes do ranking mundial para ser ouro em casa, a quinta medalha desse esporte e a primeira dourada. Também houve a conquista de duas medalhas douradas no mesmo dia, Martine Grael e Kahena Kunze garantiram o ouro na vela, emocionante e conquistado na última volta da Medal Race, mais tarde Alison e Bruno Schmidt foram ouro em Copacabana, após 12 anos trouxeram outra medalha de campeão para o vôlei de praia.

No futebol, o primeiro ouro olímpico veio, vencendo a Alemanha na final, não é um troco pelo 7×1 sofrido, mas pode ser uma forma de iniciar um novo ciclo e começar a pôr fim nos fantasmas do “Maracanazzo” e do “7×1”, já que o título foi frente a Alemanha e no Maracanã, mas sempre mantendo a ressalva de que o torneio olímpico de futebol não tem muito peso histórico. Para fechar a competição, o título do vôlei que garantiu o 7º ouro, o time comandado pelo Bernardinho – maior treinador da história do esporte nacional – consagrou o esporte mais vencedor do país neste século, o hino brasileiro foi tocado no último dia de competições, a bandeira nacional erguida pela última vez.

Último ouro garantiu o hino de despedida

Último ouro garantiu o hino de despedida

Também não podem ser esquecidos, os atletas que fizeram boas campanhas e terminaram sem medalhas, as meninas do futebol feminino fizeram excelente campanha e terminaram com o quarto lugar, assim como a dupla Larissa e Talita no vôlei de praia, Caio Bonfim mostrou a marcha atlética ao país conquistando o quarto lugar nos 20km e nono lugar nos 50km. O maior medalhista brasileiro, Robert Scheidt, encerrou na quarta colocação, mas vencendo sua última regata olímpica e sendo ovacionado pela torcida, também houveram as melhores campanhas históricas na esgrima, handball, tênis de mesa, entre outros.

O Brasil aproveitou a competição no Rio de Janeiro para exorcizar alguns fantasmas como o fato de não vencer dentro de casa, Maracanã, Engenhão, Maracanãzinho, Arena de Copacabana, Lagoa Rodrigo de Freitas e Marina da Glória, todos “cartões postais” do Rio, foram consagrados com medalhas de brasileiros, as falhas em Copas do Mundo foram relativizadas durante os Jogos Olímpicos.

Mas, a competição não foi só sucesso para o Brasil, apesar do recorde de medalhas, a campanha foi abaixo do esperado, o objetivo inicial do COB de conquistar 30 medalhas – com o início das Olimpíadas passou à 24 – não foi alcançado já que o Brasil não completou nem a segunda dezena de medalhas, e o esperado top-10 não foi alcançado, a campanha foi a melhor, mas com certa decepção. Alguns esportes também obtiveram péssimos resultados, o basquete caiu na primeira fase, tanto no masculino quanto no feminino, a natação não trouxe nenhuma medalha mesmo contando com um dos maiores investimentos do último ciclo olímpico.

Basquete masculino caiu ainda na primeira fase

Basquete masculino caiu ainda na primeira fase

Esses maus resultados são fruto de uma série de fatores, mas dois principais chamam atenção, são eles a falta de investimento e a falta de cultura esportiva no Brasil. Hoje, o Brasil é um país que preocupa-se com apenas um esporte, o futebol masculino, isso atrapalha e muito o crescimento de outros esportes, tanto o público quanto os investidores renegam as outras modalidades brasileiras e preocupam-se com as mesmas apenas durante o mês olímpico, isso é algo a ser mudado após os resultados brasileiros no Rio/2016, foram resultados que mostram a falta de apoio a muitos esportes e ao mesmo tempo, a qualidade de muitos atletas brasileiros desconhecidos por grande parte do público.

O vôlei é um bom exemplo de esporte em que o Brasil é uma potência e poderia ser muito mais, hoje a Superliga de Vôlei é a segunda competição melhor estruturada do país – atrás do Campeonato Brasileiro de futebol -, mais ainda não recebe a atenção necessária do público, apesar de contar com times fortíssimos e muitos dos melhores jogadores do mundo, a competição não tem seus jogos transmitidos pela tv aberta, não é muito comentado em programas esportivos e não é “comprado” por um terço do público do futebol. Com o investimento certo, o Brasil poderia fazer de seu vôlei, um produto fortíssimo e vendido ao mundo todo, algumas ligas como de basquete, handball e outros esportes são fraquíssimas e deixadas de lado, médias de público ruins e investimentos mínimos, mas este tema fica para outro texto devido à sua complexidade, envolver investimentos, cultura esportiva, educação pública e diversas variáveis importantes.

Posto isso, as Olimpíadas podem mostrar um caminho esportivo ao Brasil, ouro em seu esporte mais popular, mas também vencendo em esportes que muita gente não sabia da existência, é a oportunidade de deixar de lado a política monoesportiva e investir em outros esportes, investir não apenas capital, mas interesse, o público também precisa mostrar que quer consumir algo diferente do futebol masculino, não significa substituí-lo, mas complementá-lo, mostrar que também é possível viver com outras opções esportivas, de entretenimento, de inserção social e de tudo mais que o esporte pode trazer.

No mais, a campanha brasileira entrou para a história e o Rio fechou bem a sequência de eventos mundiais recebidos pelo Brasil, que sirva de exemplo para honrar o hino nacional e construir um futuro melhor, mostrar que é gigante por natureza e tornar-se – finalmente – o que os atletas brasileiros mostraram ser nos últimos dias, belos, fortes e impávidos colossos.

*Dos dias 07 a 18 de setembro, ocorrerão os Jogos Paralímpicos, uma grande oportunidade de acompanhar grandes atletas brasileiros.

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Amante do esporte, presente em uma das tantas curvas da highway. Mineiro, acima de tudo Cruzeiro. Fã de futebol rápido, não necessariamente rasteiro. Acredita na Copa do Mundo como momento máximo do esporte.

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