Com o mercado de transferências ainda em banho maria, a Eurocopa tem sido o foco das atenções nesse intervalo do futebol internacional. Diversas estrelas que figuram entre as principais especulações das negociatas futebolísticas continuam desfilando talentos nos gramados franceses, a fim de reduzir o aborrecimento dos assíduos telespectadores do futebol europeu, como eu.

Com um número recorde de participantes (24), essa Eurocopa tem suficiente espaço para todos os craques do continente, inclusive aqueles que dificilmente disputam uma Copa do Mundo, como o sueco Ibrahimovic, o galês Bale ou o polonês Lewandowski. Enquanto que todas as seleções que frequentemente marcam presença em Copa, também se fizeram presente na Euro, já que esse é um torneio de menor concorrência. Certo? Errado.

Além das não tão relevantes ausências de Bósnia e Grécia, presentes no Brasil em 2014, há uma seleção que certamente lhe causou um certo inconformismo ao descobrir sua não qualificação para a Eurocopa… sim, a Holanda. Talvez a história dessa renomada camisa laranja pese mais nos nossos lamentos do que realmente o time que a veste hoje, para exemplificar, vejamos a escalação holandesa no último compromisso pelas eliminatórias da Eurocopa, quando foi derrotada por 3×2 pela República Tcheca:

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Van Dost e Van Persie entraram no decorrer da partida

Dentre esses, são três remanescentes da Copa 2010: Sneijder, Van Persie e Huntelaar, todos acima dos 30 anos, assim como Robben, talvez o melhor jogador holandês em atividade, mas que esteve ausente desse confronto. O momento é de entressafra, as principais esperanças de renovação são Wijnaldum e Depay, bons jogadores de muito potencial, mas ainda é pouco para uma seleção acostumada com boas participações em Euro e Copas do Mundo.

Digo acostumado com boas participações pois as grandes conquistas realmente não fazem parte da tradição holandesa, há apenas uma importante taça sob a tutela holandesa: A Eurocopa 1988, um título que muito tem para ensinar a atual Laranja Mecânica.

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A Holanda que viajou para a Alemanha rumo a sua primeira taça, em 1988, conhecia bem o peso da palavra ‘entressafra’. Vinham de três fracassos seguidos em eliminatórias, sendo esses para a Copa de 1982 e 1986, além da Eurocopa 1984. E é difícil de acreditar que a mesma seleção que apresentou um futebol primoroso nas Copas de 1974 e 1978, decaiu tecnicamente tão rápida e drasticamente como ocorreu, mas foi inevitável.

Os principais jogadores do carrossel holandês já estavam na segunda metade de suas carreiras na Copa de 1974, e a maioria fez sua última exibição com a laranja ainda no início da década de 80. Simultaneamente a isso, a nova geração ascendia aos profissionais, jogadores que viriam a conquistar a Europa, como Koeman, Gullit, Rijkaard e Van Basten estavam dando seus primeiros passos no futebol, faltava amadurecimento para cumprir com a responsabilidade de defender o manto laranja.

Em 1983, os quatro acima já haviam estreado pela seleção, e a tal da experiência pesou. Os fracassos vieram, e a Holanda se manteve alheia a três grandes competições consecutivas, sendo as duas últimas já com os principais nomes da nova geração integrados.

15michelsA peça que faltava para recolocar a Holanda nos trilhos chegou apenas em 1984, e não ocupava nenhuma função dentro das quatro linhas. Este era Rinus Michels, o célebre técnico por trás do Futebol Total em 1974, que com apenas 3 meses de preparação e 3 amistosos disputados, transformou a Holanda que estava ausente das últimas 6 Copas em vice-campeã mundial, com direito a uma revolução futebolística. 10 anos depois, entretanto, o panorama era completamente diferente, inviabilizando uma ascensão tão brusca.

Com uma primeira temporada mediana, Michels se ausentou por um ano do comando da seleção para realizar sua primeira cirurgia cardíaca (a segunda, infelizmente, lhe causaria a morte, em 2005), e retornou em 1986, onde pôde colocar todo seu foco na classificação holandesa para a Eurocopa de 1988.

Ao fim das eliminatórias do torneio europeu, os comandados de Michels estavam confirmados como uma das 8 seleções que iriam a Alemanha disputar o torneio continental. Embora os 5 pontos de vantagem para a Grécia, vice de seu grupo nas eliminatórias, transmitam facilidade no acesso, isso não passa de um factoide. Após ter a goleada de 8×0 sobre o Chipre na penúltima rodada revogada, por falta de segurança adequada no estádio – um torcedor atingiu o goleiro cipriota com uma laranja (irônico, não?) – a Holanda chegaria a última rodada ainda não garantida, com um ponto de vantagem para enfrentar a vice Grécia, mas conseguiu, judicialmente, marcar uma nova partida com o Chipre, onde venceram por 4×0 e confirmaram presença naquela Eurocopa.

Faltavam apenas cinco dias para a Holanda completar 8 anos longe das grandes competições quando entrou no gramado para estrear contra a União Soviética, o resultado adverso pelo placar mínimo apesar de insatisfatório, não foi traumático, a equipe da URSS era muito boa, e favorita do grupo, que ainda continha Irlanda e Inglaterra.

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Na segunda partida, contra o English Team, a estrela de Van Basten brilhou, foram dele os três gols da Holanda na vitória por 3×1. Uma resposta assertiva sobre todas as dúvidas que tinham sobre suas condições de jogo no torneio, já que tinha acabado de se recuperar de uma lesão no tornozelo, que o deixou 5 meses fora dos gramados, e de uma pequena fratura num osso facial, que o deixou de repouso já durante a preparação para a Eurocopa, além da desconfiança do próprio Michels, que o achava um jogador de muito requinte e pouca coletividade, logo, substituível.

Para encerrar a fase de grupos, venceram pelo placar mínimo a Irlanda, e confirmaram presença na semi, para qual se classificaram em segundo lugar do grupo, atrás dos soviéticos.

Coube ao destino (e ao chaveamento dos grupos) nos proporcionar um duelo de altíssima expectativa na semifinal: Alemanha x Holanda. A grandiosidade deste embate vai além dos grandes nomes que compunham os selecionados, essa era a repetição da final da Copa do Mundo de 1974! A Laranja Mecânica tinha a frente a mesma seleção que lhes venceu e impediu a concretização de um sonho, lhes tomou uma conquista equivalente ao tamanho da história que aquela equipe escreveu.

15germanyApós um primeiro tempo sem gols, Matthaus abriu o placar para os alemães aos 10 minutos, cobrando pênalti. Foi também da marca da cal que saiu o gol de empate holandês, com Ronald Koeman, aos 29. Restavam apenas 2 minutos para o final da partida, quando a rede voltou a balançar, para sacramentar a revanche, e calar a Alemanha que os calou 14 anos antes, também jogando na Alemanha, e também de virada. Van Basten vingou o carrossel holandês. Posteriormente, o próprio viria afirmar que essa semi contra a Alemanha foi a verdadeira final da Eurocopa. Do outro lado da chave, lutando por vaga na “pseudo final”, a Itália se despedia, então União Soviética e Holanda reeditariam a estreia, valendo taça, em Munique.

Na finalíssima, já sabendo dos pontos fortes da equipe soviética, e tendo seus próprios pontos positivos aflorados durante a competição, a Holanda dominou o adversário e garantiu o único título de sua história com um cabeceio de Gullit e um voleio antológico de Van Basten, que certamente figura entre os mais belos tentos da história do futebol europeu, além de uma defesa de pênalti do seguro goleiro Van Breukelen.

Hoje a Laranja tá mais pra bagaço, o fantasma da entressafra novamente assola o país, e o medo de novas ausências em grandes torneios é uma possibilidade que precisa ser levada a sério.
O aproveitamento pífio de 43% nas eliminatórias da atual edição da Euro, num modesto grupo com República Tcheca, Islândia, Turquia, Cazaquistão e Letônia, representa bem a decadência da seleção que saiu do Brasil com a terceira colocação da Copa em 2014. Muito precisa mudar para que a seleção holandesa participe da Copa da Rússia, fica a expectativa para descobrir como irão atuar nas eliminatórias após esse primeiro fracasso, e caso a tal entressafra realmente castigue a Laranja Mecânica com numerosas ausências, fica a expectativa para saber o que irá aprontar a próxima geração holandesa.

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Quando voltaram a Copa do Mundo, após 6 ausências consecutivas, trataram de revolucionar o esporte. Quando voltaram a um grande torneio após 3 fracassos em eliminatórias, se sagraram campeões. Basta olhar para trás e ver que a seleção holandesa conhece muito bem os fracassos, as ausências de grandes torneios, e, acima de tudo isso, a redenção.

As entressafras e as grandes campanhas vivem sucedendo umas às outras na história do futebol holandês, um revezamento consecutivo de altos e baixos, num looping infinito que faz lembrar um carrossel… Onde os cavalos trotam no ritmo em que a história é escrita. Recomendo que escolha o seu, suba e contemple o que há de vir, porque quem não acreditar nesse carrossel, e se mantiver com os pés no chão, certamente tomará um coice.

About The Author

Aos 3 anos "escolhi" meu clube do coração num sorteio, e sigo com ele até hoje, aprendi a amar o futebol aos 8 anos, com a Copa do Mundo de 2006, onde eu fingia torcer pra Argentina mas chorei com o gol de Henry, a partir daí comecei a trocar os desenhos infantis por reprises do campeonato espanhol, e hoje escrevo as histórias desse esporte na QQD.

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