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Acordava às oito. Tomava o rotineiro café da manhã, brincava com a filha, ajudava a esposa, ia aqui e ali, nas ruas os carros passavam velozes, as folhas do pé de figo caíam sujando a calçada e por fim, almoçava feijão verde com bode cozido feito pela sogra.

Aquele domingo tinha conotação diferente. Era dia de Flamengo e Vasco.

Após o almoço, dormia um sono nada tranquilo com as cobertas sobre os olhos, o ventilador girando forte para amenizar o calor seridoense, a filha assistindo desenho e a mulher descansando estirada numa rede no alpendre.

Despertava quinze minutos antes do jogo. Ver a escalação, os comentários dos repórteres, era parte integrante da missa pagã. Também dava tempo de pegar uma cerveja gelada e vestir a camisa rubro-negra.

O jogo começa e o sistema nervoso vai pro espaço. Gritos, xingamentos, aplausos, reclamações para o goleiro mão de alface, o zagueiro que usa salto, o atacante sem malícia, o técnico que não pensa, o dirigente que não contrata.

Gol do Vasco. O vizinho vai abaixo e esbraveja o quanto pode. O título que não vem há uma década está perto.

Nosso homem pega o telefone e liga para um dos amigos. “Se nada mudar, será mais do mesmo esse ano”, “seremos rebaixados com estes palhaços”.

O intervalo vem e as propagandas seguem. Está apto a reclamar de absolutamente tudo: desde os preços da tão sonhada geladeira até os corruptos supostamente comunistas que estão no poder. Ladrões! Desabafar a dor momentânea da derrota é algo totalmente normal, mas ainda tem o segundo tempo.

A esposa vem, reclama que não tem açúcar, óleo, alho, gengibre. Gengibre? Caralho! Estamos perdendo o título pro Vasco, se formos campeões compro o mercado inteiro. A filha vem, pede dinheiro pra comprar sorvete. Nosso homem, cego, pragueja, mas dá a primeira nota que vê na carteira em busca do sossego.

E no finalzinho, quando tudo estava perdido, um pobre coitado rubro-negro põe a bola pra dentro.

Gol! O dia está salvo. O gol foi irregular, mas foda-se, é o Vasco. Roubado é mais gostoso.

E à noite, ao chegar da comemoração, incrédulo, senta ao computador, revê os lances, comemora do mesmo jeito.

E aquele mesmo jogador, que ele tanto praguejou, é exaltado: “ainda bem que está do nosso lado”. Liga para o amigo e diz: “daremos trabalho no Brasileiro”.

Por um momento, as dívidas somem, o velhaco do outro lado da cidade que deve uma nota é esquecido, a labuta que vem na segunda feira será prazerosa.

O sono é mais tranquilo. O acordar será alegre.

Os deuses do futebol brincam com o “imbrincável”: os sentimentos…

imagem: extra.globo.com

About The Author

Acima de tudo rubro-negro. Se considera amante do jogo com a bola nos pés desde os 5 anos. Admirador de Messi, Romário, Petkovic, dos Culés, fã das provocações extracampo e da cerveja e bandeirões nos estádios. Estudante do 3º período de Jornalismo da UFRN.

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