Após uma vitória acachapante e um suado triunfo sobre São Paulo e Corinthians, respectivamente, o Audax está a dois passos do impossível, terá o Santos pela frente nos dias 1 e 8 de Maio como último obstáculo para trazer a inédita taça ao bem treinado time de Fernando Diniz.

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(Foto: Divulgação/Audax)

Embora a aparição de um time de menor expressão nas semifinais (e nesse caso, na final) do campeonato paulista seja sempre alvo de muito vislumbre midiático, a presença de um “penetra” entre os 4 melhores do Paulistão se tornou algo comum:

Neste século tivemos 16 edições do campeonato paulista, onde os 4 grandes do estado ocuparam as 4 primeiras colocações em apenas 3 oportunidades: 2009, 2011 e 2015. Evento que tem a mesma frequência que a conquista do título por um time de menor expressão: Ituano 2002*/2014 e São Caetano 2004

*Nenhum dos 4 grandes disputou o Paulistão nesse ano, pois optaram por jogar a taça Rio São Paulo

Tais acontecimentos facilitam a escolha do Campeonato Paulista como “O Estadual mais disputado do país”, apelido esse que transmite ao público a falsa impressão de que o futebol paulista está em excelente fase.

O atual momento do futebol paulista vai muito além do título Corintiano do Brasileirão ou da Copa do Brasil Palmeirense, ambos no ano passado. O cenário do esporte no estado está passando por um fenômeno que já se consolidou no futebol carioca.

Tal fenômeno proporciona um agigantamento ainda maior dos times de alta visibilidade em relação aos rivais do estado, que cada vez mais se apequenam, deixando uma vala técnica e financeira abissal entre grandes e nanicos, devido a erradicação dos times de médio porte.

Vamos citar brevemente alguns times paulistas medianos em queda livre:

GUARANI

3guarani

A galeria de troféus do (não mais) grande Bugre ostenta o Brasileirão de 1978 e a Série B de 1981, o último por sinal é o caçula da galeria, pois já são 35 anos na fila por um título de expressão. De lá pra cá os bugrinos tiveram que se contentar com amargos e numerosos vices campeonatos: Vice Campeão Brasileiro 1986 e 1987; Vice Campeão Paulista 1988 e 2012; Vice Campeão Série B 1991 e 2009; Vice Campeão Série C 2008

3guaranicampeaoÚLTIMOS 5 ANOS DO CLUBE:
2011 – 12º na Série B do Brasileirão; Vice na Série A2 do Paulista
2012 – 18° na Série B do Brasileirão; Vice na Série A1 do Paulista
2013 – 14º na Série C do Brasileirão; Último na Série A1 do Paulista
2014 – 13º na Série C do Brasileirão; 13° na Série A2 do Paulista
2015 – 11° na Série C do Brasileirão; 8° na Série A2 do Paulista

Na atual edição do Campeonato Paulista Série A2 o Bugre não tem mais chances de promoção.

O clube passou por grave crise financeira na última virada de década, chegando a 5 meses de dívida salarial com os jogadores. Após superada a turbulência, o vice campeonato paulista deu esperança ao renascimento do gigante campineiro, mas tudo não passou de ilusão e no ano seguinte veio o 9° rebaixamento em 12 anos, são eles:
Rebaixamento da Série A1 do Paulista (2001, 2006, 2009 e 2013), Rebaixamento Torneio Rio-São Paulo (2002), Rebaixamento da Série A do Brasileirão (2004 e 2010) e Rebaixamento da Série B do Brasileirão (2006 e 2012).

PAULISTA DE JUNDIAÍ   

       3paulista

Mesmo não sendo uma equipe da magnitude do Guarani, o Galo possui conquistas muito aquém do seu atual cenário, as duas principais são a Série C 2001 e a Copa do Brasil 2005.

A situação é tão deprimente que a página oficial do clube conta com um extenso pedido de desculpas aos torcedores, onde também apresentam a iniciativa Novo Paulista, que tenta reerguer o clube com transparência financeira e projetos de sócio torcedor.

3paulistacampeaoÚLTIMOS 5 ANOS DO CLUBE:
2011
– Não disputou divisão nacional; 10° na Série A1 do Paulista
2012 – Não disputou divisão nacional; 13° na Série A1 do Paulista
2013 – Não disputou divisão nacional; 13° na Série A1 do Paulista
2014 – Não disputou divisão nacional; 20° na Série A1 do Paulista
2015 – Não disputou divisão nacional; 11° na Série A2 do Paulista

Na atual edição do Campeonato Paulista A2 o Paulista foi rebaixado para a Série A3, e também não disputará um campeonato nacional pelo sétimo ano consecutivo.

O clube hoje acumula uma dívida de 25 milhões de reais, além dos salários não pagos de todos os funcionários do clube no mês de Abril e parte do mês de Março, por tais razões o presidente do clube não garante participação na Copa Paulista deste ano.

SÃO CAETANO

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Apesar de só ter vencido um único campeonato paulista, em 2004, e nenhum outro torneio relevante, o Azulão se consolidou como o time do “quase”: Vice Campeão Paulista 2007; Vice Campeão Brasileiro 2000 e 2001; Vice Campeão da Libertadores 2002

3saocaetanocampeaoÚLTIMOS 5 ANOS DO CLUBE:
2011 – 15° na Série B do Brasileirão; 9° na Série A1 do Paulista
2012 – 5° na Série B do Brasileirão; 12° na Série A1 do Paulista
2013 – 19° na Série B do Brasileirão; 19° na Série A1 do Paulista
2014 – 17° na Série C do Brasileirão; 16° na Série A2 do Paulista
2015 – 5° na Série D do Brasileirão; 7° na Série A2 do Paulista

Na atual edição do Campeonato Paulista A2 o São Caetano não tem mais chances de promoção, e não participará de nenhuma divisão nacional pela primeira vez desde 1997

Muitos atribuem a decadência do São Caetano a morte do atleta Serginho, em 2004, durante partida contra o São Paulo, uma tragédia que se desdobrou até em problemas judiciais, mas o presidente discorda dessa versão, diz que o clube pecou em abdicar de sua essência de clube formador e apostar em muitos jogadores experientes, afirma também que não há dívidas para pagar, todas contas estão em dia segundo ele.

SANTO ANDRÉ

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Sua única grande conquista foi a Copa do Brasil 2004, sobre o Flamengo, mas o clube sempre se mostrou seguro nas grandes divisões nacionais e estaduais, além do vice da Série B do Brasileirão em 2008, e o vice estadual em 2010, mas ultimamente as coisas desandaram para a equipe do Ramalhão

3santocampeaoÚLTIMOS 5 ANOS DO CLUBE:
2011 – 16° na Série C do Brasileirão; 20° na Série A1 do Paulista
2012 – 18° na Série C do Brasileirão; 14° na Série A2 do Paulista
2013 – 16° na Série D do Brasileirão; 13° na Série A2 do Paulista
2014 – Não disputou divisão nacional; 6° na Série A2 do Paulista
2015 – Não disputou divisão nacional; 9° na Série A2 do Paulista

Na atual edição do Campeonato Paulista A2 o Santo André está próximo da promoção, mas não participará de nenhuma divisão nacional novamente.

Em 2014, o presidente Jairo afirmou que o clube está com as finanças em dia, sem dívidas, e culpa a empresa SAGED, que geriu o clube após o triunfo na Copa do Brasil até o início de 2013, pela decadência da equipe, e também vê o investimento na base como saída para essa situação.

PORTUGUESA

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Mesmo sem grandes conquistas, a Lusa carrega a Série B 2011 e os Paulistões de 1935, 1936 e 1973 em sua longa bagagem para atestar sua tradicionalidade no estado, e também é fácil recordar as participações da Portuguesa na Série A, ainda frescas na memória – como esquecer o famoso ‘Caso Héverton’ em 2013?

3portuguesacampeaÚLTIMOS 5 ANOS DO CLUBE:
2011 – Campeã da Série B do Brasileirão; 8ª na Série A1 do Paulista
2012 – 16ª na Série A do Brasileirão; 17ª na Série A1 do Paulista
2013 – 17ª na Série A do Brasileirão; 2ª na Série A2 do Paulista
2014 – 20ª na Série B do Brasileirão; 12ª na Série A1 do Paulista
2015 – 8ª na Série C do Brasileirão; 18ª na Série A1 do Paulista

Na atual edição do Campeonato Paulista A2 a Portuguesa não tem chances de promoção

Há um processo tramitando no TJD que poderá fazer a Portuguesa perder 3 pontos no campeonato estadual referente a 3 meses de atraso nos salários dos jogadores, o que ocasionará o rebaixamento da Lusa para a Série A3 do Paulista, caso seja punida.

A decadência do clube se deve em grande parte ao já citado caso Heverton, que rebaixou a equipe de forma surpreendente e repentina, salvando Fla ou Flu do descenso. Desde esse evento o clube vive em queda íngreme, flertando com a falência a cada ano que passa.

O FUTEBOL PAULISTA A NÍVEL NACIONAL NO SÉCULO XXI

O gráfico abaixo retrata a fatia de vagas nas duas primeiras divisões que são ocupadas por Paulistas, além de um agregado de ambas divisões.

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Podemos ver com nitidez o começo de século (supostamente) pujante dos Paulistas, ocupando quase 1/3 das vagas na elite, enquanto os paulistas da série B alcançavam pouco mais que 10% das vagas.

O percentual de paulistas na série A jamais voltaria a ser tão grande, e para que isso venha acontecer, seguindo o atual formato de disputa, seriam necessários 7 representantes do estado na primeira divisão, o que não acontece desde 2004, quando ainda haviam 24 clubes participantes.

Sete na verdade é o número de representantes paulistas no agregado das duas principais divisões, o pior número do século, são 5 na série A e outros 2 na Série B.

Percebam que desde 2010 a quantidade total de equipes do estado nas divisões principais não apresenta uma subida sequer, já na série B a representação não cresce desde 2011.

Na Série A o número se estabilizou na mediocridade, os 4 grandes têm, vez ou outra, a companhia de algum primo pobre, o qual sempre passa o campeonato sem grandes ambições, e normalmente flertando com o descenso, a bola da vez é a Ponte Preta.

Anteriormente o limiar de 25% das vagas soava patético para os Paulistas, hoje é um número que ecoa bem nos ouvidos. Em 2003 e 2013 esse foi o percentual, mas já houve pior: 2007, 2008, 2011 e 2015 tiveram apenas 20% das vagas ocupadas por Paulistas, sendo 2008 o único caso onde não eram apenas os 4 grandes que seguravam tal índice.

Quem acompanhou o futebol brasileiro na década de 90 sabe que os paulistas sempre flertaram com 1 terço das vagas na elite, chegando a superar essa marca em três oportunidades: 1990 – 40%, 1992 – 35% e 1999 – 36%, alcançaram exatos 1/3 em 1994, 1995 e 1998, contando com apenas um terrível 25% na década, em 1993.

Agora fazendo um pequeno comparativo: Em nenhum dos 16 primeiros anos do Século XXI os Paulistas conseguiram sequer alcançar a terça parte das vagas. Enquanto os 25% se tornaram rotina: 2003, 2013, 2015 e 2016, além de pífios 20% em 2007, 2008, 2011 e 2014.

Nos 10 anos de 1990 a 1999 a “missão um terço” teve sucesso em 6 ocasiões.
Nos 16 anos do Século XXI o “fiasco 25%” foi alcançado (ou superado) em 8 ocasiões.

As ‘quintas forças’ do futebol paulista estão sendo erradicadas uma a uma, figuram cada vez menos nas principais divisões, fazendo a disparidade técnica e financeira entre grandes e pequenos se alargar cada vez mais.

O estado de São Paulo a cada ano que passa perde força, e caminho a passos largos para uma “carioquização” de seu torneio.

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O início da queda dos times de médio e pequeno porte é sempre indiferente, ou até agradável, para os grandes do estado, pois disputam um estadual mais frágil e menos perigoso, além de também facilitar o trabalho na Copa do Brasil, já que hoje parece impossível ver um clube paulista sem holofotes avançando muito no torneio, ou até vencendo-o, como ocorreu em 2004 e 2005.

Mas a médio e longo prazo o efeito dessa decadência é também sentido pelos grandes, no Rio de Janeiro os quatro fortes estão longe de seu auge, Botafogo e Vasco flertam com o rebaixamento frequentemente, e a dupla Fla-Flu pouco ameaça. A desvalorização do estadual está nitidamente atrelada a tal inexpressividade dos cariocas, pois são eventos que ocorrem simultaneamente.

Observar o Audax surpreendendo no Paulistão rouba um pouco da minha atenção, era um nanico, e agora está na final… mas me pergunto: Tirando os 5 da elite nacional, qual clube do Paulistão não seria visto como surpresa se alcançasse uma final? Eu respondo: Nenhum.

Olhando para o estadual podemos notar que nos primeiros 8 anos do século não tivemos um monopólio sequer dos grandes sobre as quatro primeiras posições, mas nos últimos 8 anos vivenciamos esse ocorrido três vezes.

É notória também a displicência com a qual jogam alguns grandes no estadual, o Santos talvez seja o único exemplo de seriedade irrestrita no torneio, pois todos outros 3 demonstraram, em algum momento do torneio, sinais claros de desleixo e desinteresse, que acenam nitidamente para uma degradação do torneio estadual, ocasionada pela decadência dos medianos paulistas.

No Ranking da CBF é fácil notar o início da disparidade:
Corinthians (1°), Santos (4°), São Paulo (5°) e Palmeiras (8°).
Surge como quinta força a Ponte Preta (17ª).
E a sexta força, bem abaixo, é a Portuguesa (32ª).

A nível de comparação, vejamos a situação dos cariocas:
Flamengo (6°), Fluminense (10°), Vasco (11°) e Botafogo (13°).
A quinta força, se é que podemos chamar assim, é o Macaé (45°)
E a sexta é o Madureira (54°).

Não me surpreendi com Fred clamando pelo fim do Carioca em 2015
Na verdade apenas me perguntei quando pedirão o fim do Paulista, e quem terá essa audácia, até porque isso é apenas uma questão de tempo… (ou de ponto de vista)

Enfim, façam suas apostas!

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Aos 3 anos "escolhi" meu clube do coração num sorteio, e sigo com ele até hoje, aprendi a amar o futebol aos 8 anos, com a Copa do Mundo de 2006, onde eu fingia torcer pra Argentina mas chorei com o gol de Henry, a partir daí comecei a trocar os desenhos infantis por reprises do campeonato espanhol, e hoje escrevo as histórias desse esporte na QQD.

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