Nada mais sensato do que dedicar o meu primeiro post no QQD à fonte das minhas primeiras lembranças minimamente claras sobre futebol: a Copa do Mundo de 2002, realizada na Coreia do Sul e no Japão. Obviamente que, por estar então no alto dos meus oito anos de idade, as recordações que possuo desta competição são imprecisas, inexatas e carentes de profundidade tática. No entanto, mais importante do que isso, foi nesta ocasião que se deu o início da minha relação com este esporte tão apaixonante. Tal como o primeiro beijo, a aprovação no vestibular ou mesmo o primeiro emprego, quando se é um doente por futebol a primeira lembrança acerca do jogo a gente também não se esquece. Desta maneira, não havia como iniciar os trabalhos no site de outra maneira que não fosse esta.

As atenções aqui, contudo, estarão concentradas para aquele que considero o clímax da conquista brasileira: a vitória contra a Inglaterra, nas quartas-de-final do certame. No entanto, para se entender a dimensão deste jogo, e porquê de ele ser tão memorável, faz-se necessária uma viagem no tempo.

Pois bem, dito isso, voltemos ao ano de 2002. No Brasil, a economia ia mal, com o dólar aproximando-se dos R$3, o desemprego acima de 10% e a inflação em 11%. Em meio à isso, uma tensa corrida presidencial se desenrolava, a qual viria a conceder a presidência à Luiz Inácio Lula da Silva. Entretanto, para um garoto de oito anos, tudo isso parecia estar em segundo plano, ainda mais durante aquele junho de 2002. Ora, uma Copa do Mundo estava prestes a se iniciar! Uma competição marcada pelo pioneirismo, não somente para mim, que estava me acostumando a trocar o dia pela noite (hábito que se iniciava ali e que possuo até hoje…) para não perder um único jogo daquela que era a primeira copa que acompanhava, mas também para todos os amantes de futebol, afinal pela primeira vez a disputa ocorreria em continente asiático e, também pela primeira vez, haveria dois países-sede: Coreia do Sul e Japão.
Ao contrário de edições anteriores, em 2002 o Brasil não chegava ao torneio na condição de favorito. Muito pelo contrário.

Isso porque Romário, na época o jogador mais reverenciado pela torcida, havia sido vetado pelo nosso então treinador, Luiz Felipe Scolari. Já Ronaldo, a opção escolhida pelo técnico, aparentava já não ser mais o mesmo, afinal vinha de uma série de temporadas malogradas, em função de duas cruéis lesões no joelho direito. Outra incerteza que pairava sobre a convocação de Felipão dizia respeito ao fato de a mesma ter sido repleta de jogadores que até então possuíam pouca bagagem internacional, tais como Lúcio, Kleberson, Gilberto Silva e Kaká.
Em meio à tanta desconfiança, o Brasil estrearia no torneio no dia três de junho, um jogo difícil, contra uma Turquia que ali já demonstrava que daria trabalho no torneio. A vitória brasileira veio de virada, e com ajuda do árbitro, que viu pênalti inexistente à nosso favor aos 42 minutos do segundo tempo. Na sequência do torneio, vitórias mais tranquilas contra as fracas seleções chinesa e costa-riquenha.

Denilson e seu famoso lance contra a Turquia (Foto: Reprodução/UOL)

Passamos às oitavas-de-final. Até ali, nenhuma surpresa, pois ainda que houvesse enorme desconfiança em relação aos convocados de Felipão, ninguém duvidava que passaríamos de fase, ainda mais em um grupo tão tecnicamente fraco. No jogo das oitavas, tivemos uma daquelas vitórias que o placar não traduz aquilo que realmente ocorreu dentro de campo. A vitória de 2×0 contra a Bélgica, ao contrário do que o resultado possa indicar, foi dificílima. Os dois gols só vieram na segunda metade do segundo tempo, após muita pressão do selecionado belga, o qual obrigou Marcos a executar uma infinidade de defesas difíceis até Rivaldo abrir o contador.

Com a vitória, chegávamos, enfim, às quartas-de-final. E como era de se esperar, o adversário a ser enfrentado nesta fase mais aguda da competição apresentava um nível técnico muito acima dos que a seleção havia enfrentado até então. A Inglaterra, país que inventou o futebol, trouxe para a Ásia uma seleção muito forte, comprometida a encerar com o jejum no qual se encontrava desde 1966, ano do primeiro e único título mundial do English Team. A geração inglesa treinada por Sven-Goran Eriksson, uma das melhores da história do país, possuía grandes talentos, como Michael Owen, Paul Scholes e Robbie Fowler. O grande nome daquela equipe, contudo, era David Beckham, um jogador midiático, mas, acima de tudo, brilhante, ao contrário do que muita gente aqui no Brasil até hoje pensa.

Por ser o primeiro adversário de peso que o Brasil enfrentaria naquela competição e, ademais, envolver um jogo de mata-mata, no qual uma derrota acarretaria na eliminação, a expectativa em torno do jogo era enorme. É importante lembrar também que este seria o primeiro jogo importante que a seleção teria contra uma grande seleção mundial desde a derrota para a França na final da Copa do Mundo de 1998, a qual, em razão de seus contornos e detalhes próprios, representava àquela altura um grande trauma.

Enfim, após muita espera, às 3:30 da madrugada daquele 21 de junho de 2002 começava o tão esperado confronto. A Inglaterra vinha para a partida em Shizuoka em êxtase, pois havia vencido de maneira incontestável a então perigosa seleção dinamarquesa na fase anterior. Já do outro lado do Atlântico, a expectativa no Brasil era enfim iniciar o sepultamento do fracasso de 1998 e dar um passo gigante em busca do tão sonhado pentacampeonato.

No entanto, as coisas não começaram favoráveis para o time de Felipão. Eriksson armou o time inglês de maneira inteligente, através de um alinhamento preciso dos quatro meio-campistas, situado logo à frente de sua defesa. Assim, o treinador do time inglês fechava espaços para os avanços brasileiros nas laterais, limitando as atuações dos excelentes Cafú e Roberto Carlos, e fornecia boa munição ao ataque do selecionado europeu, composto pelo veloz Michael Owen e pelo forte Emile Heskey. A estratégia mostrou-se correta logo aos 22 minutos de jogo, quando após lançamento de longa distância e falha bisonha de Lúcio na tentativa de interceptá-lo, a bola sobrou para Owen, cara-a-cara com Marcos: 1×0 Inglaterra.

Foi o que bastou para colocar o time do Brasil à beira de um ataque de nervos. A despeito de estarem do outro lado do mundo, os jogadores pareciam contemplar, dentro de campo, a aflição de seus conterrâneos, fora dele. A desconfiança enorme que pairava a seleção parecia, enfim, estar sendo justificada à medida que se desenrolava o jogo contra o primeiro adversário de grande porte. Simplesmente não parecíamos ser capazes de alterar aquele que parecia ser o nosso destino.

(Foto: Reprodução/Trivela)

Até que, no apagar das luzes do primeiro tempo, aos 48 minutos, o astro inglês Beckham encolheu a perna na dividida com Roberto Carlos. Na sequência do lance, contra-ataque brilhante conduzido pela então promessa Ronaldinho Gaúcho. Após um drible desconcertante em Ashley Cole, veio o passe açucarado para Rivaldo concluir a gol com a classe que Deus lhe deu. Grito de gol. O Brasil estava de volta ao jogo.

O clímax deste confronto, contudo, ainda estava por vir. Na verdade, logo no terceiro minuto do segundo tempo, quando o árbitro mexicano Felipe Ramos apitou falta a favor do Brasil na intermediária. Ronaldinho Gaúcho se dirigia à bola, carregando consigo a esperança de um país inteiro, o qual mais uma vez buscava encontrar no futebol uma válvula de escape em meio à uma realidade por vezes demasiado severa.

O garoto gaúcho de vinte e dois anos talvez não soubesse a dimensão de sua responsabilidade naquele instante, talvez tampouco tivesse interesse em saber mais sobre os problemas estruturais de seu país. E talvez, aos menos naqueles segundos que antecederam o encontro de seu pé direito com a bola, isso realmente não importasse. Há quem diga que, na vida, os segundos que antecedem um grande acontecimento são mais prazerosos e importantes do que este em si. Talvez, no futebol, seja exatamente o contrário. Afinal, os segundos que se seguiram àquele gol antológico de Ronaldinho, em uma cobrança de falta magistral capaz de enganar e encobrir o experiente David Seaman, são de natureza inexplicável. Uma catarse capaz de libertar um time até então destinado a ser humilhado do outro lado do mundo. Mais do que isso, e em meio à irreverente e justíssima comemoração feita pelo nosso camisa 11, a certeza de que estávamos de volta ao centro do mundo do futebol, e de que dali para frente, ninguém seria capaz de nos tirar o penta.

O restante da história deste jogo é um tanto irrelevante. O English Team desmoronou ante à real ameaça de ver a sua melhor geração em anos sucumbir e falhar na missão de vencer um título mundial, que seria o primeiro em 36 anos. Ronaldinho até seria expulso poucos minutos após o gol épico, mas nem isso pôs em risco a vitória brasileira.

Quanto ao restante da Copa, o desfecho é bastante conhecido. Nova vitória suada contra a Turquia, na semifinal. Vitória contra a Alemanha, na final. Redenção completa de Ronaldo Fenômeno, que em um mês deixaria de ser visto como um ex-jogador para se transformar no atleta mais cobiçado do mundo. Rivaldo, também fundamental para a conquista, não teria a mesma sorte e iniciaria, após o torneio mundial, um declínio sem volta em sua brilhante carreira.

Ronaldinho Gaúcho, por seu turno, iria acertar sua transferência para o Barcelona no ano seguinte, onde seria rei e escreveria páginas até mais bonitas na história do futebol do que aquela escrita no Japão e aqui relatada. No entanto, o gol de placa em David Seaman naquela tarde de sol japonesa merecia aqui um destaque especial, já que foi com ele que se consubstanciou de verdade a relação deste que vos escreve com o futebol. Em outras palavras, foi com este jogo e com este gol que se iniciou a minha sincera paixão por este esporte.

About The Author

Leave a Reply

Your email address will not be published.