Qualquer pessoa que acompanhe o futebol brasileiro ou mundial, ou mesmo que esteja por dentro das notícias dos meios de comunicação, sabe da existência das chamadas “torcidas organizadas” (ou “uniformizadas”). E se, por algum acaso, você não for fã de futebol e só conhece esse termo por causa da mídia brasileira, existe uma probabilidade muito grande de sua opinião sobre isso não ser das melhores, isso porque as torcidas organizadas de futebol só viram notícia quando estão envolvidas em problemas (majoritariamente ligados à violência). Mas esse é apenas o lado superficial das torcidas organizadas.

Hoje, não existe nada mais comum no mundo do futebol do que a condenação dessas torcidas. Todas as vezes que esse tema é pauta de discussão, seja em programas de TV, no trabalho, no bar, ou em qualquer outro ambiente, surge alguém, sendo leigo ou então representante de algum órgão de segurança pública, para proclamar a já desgastada frase “isso tem que acabar”.

A "Charanga rubro-negra" foi criada em 1942, e muitos a consideram a primeira torcida organizada do Brasil

A “Charanga rubro-negra” foi criada em 1942, e muitos a consideram a primeira torcida organizada do Brasil

Mas, quando surgiram no Brasil, as torcidas organizadas não eram violentas, muito pelo contrário, elas eram compostas de torcedores que iam ao estádio com uniformes padronizados, e que queriam apenas fazer barulho, torcer, e incentivar o seu time a vencer. Só isso. As torcidas organizadas ficaram violentas de fato quando surgiram as “torcidas jovens”. Para entender melhor, é importante saber que esse movimento de torcidas organizadas apareceu no país entre as décadas de 1930 e 1940 (mas já existia na Europa desde o final do século XIX). No final da década de 1960, grupos de torcedores mais jovens começaram a se separar das grandes torcidas de seus times e a formar as suas próprias torcidas.

Foi nesse processo de criação de torcidas mais jovens que a violência se associou ao futebol. Esses jovens torcedores eram fruto de sua época, uma época de juventude “transviada” e rebelde, questionadora e agressiva, logo, tornou-se inevitável a fusão entre o “torcer” e o “brigar”, e foi aí que as torcidas organizadas viraram sinônimo de selvageria. Foi nesse momento que muitas torcidas passaram a ir aos estádios não mais para torcer somente, mas também para tentar comprovar sua “superioridade” sobre as outras torcidas através da violência.

Episódios marcantes

Ao longo da história do futebol existem inúmeros exemplos que mostram como a violência está ligada às torcidas organizadas. Alguns deles repercutiram tanto que acabaram se transformando em símbolos do combate a esse tipo de prática.

1. Na Europa

Em 29 de maio de 1985, na cidade de Bruxelas (Bélgica), em um jogo que valia o título da Taça dos Campeões Europeus, Liverpool e Juventus se enfrentaram no estádio de Heysel, onde o clube italiano saiu vencedor pelo placar de 1X0. Mas o resultado do jogo é a coisa menos lembrada desse dia.

A tragédia de Heysel: um triste fim para um dia festivo (38 mortes ao todo)

A tragédia de Heysel: um triste fim para um dia festivo (38 mortes ao todo)

Torcedores de ambas as equipes entraram em confronto dentro do estádio. Acontece que os hooligans (torcedores violentos) do Liverpool invadiram a área neutra do estádio, o que acabou provocando pânico entre os torcedores da Juventus que, diante do medo da violência, acabaram buscando se dispersar dentro das próprias arquibancadas. O resultado disso foi que a estrutura do estádio não suportou essa movimentação e acabou cedendo em um determinado setor. Isso provocou 38 mortes e mais de 400 feridos.

Depois deste trágico episódio, todos os clubes ingleses foram proibidos de participar de competições continentais durante um período de cinco anos, com exceção do Liverpool, que teve pena de seis anos.

2. No Brasil

Aqui no Brasil também existem muitos casos famosos, mas um que ganhou grande destaque aconteceu no ano de 2013. No dia 8 de dezembro, Vasco e Atlético Paranaense enfrentaram-se na Arena Joinville pela última rodada do campeonato brasileiro, com o clube carioca lutando para escapar de seu segundo rebaixamento. A partida tinha tudo para ser emocionante, principalmente para a torcida vascaína, já que seu time precisava muito da vitória. Só que o jogo em si acabou ficando com o papel de coadjuvante na tarde daquele domingo, pois, antes dos vinte minutos do primeiro tempo, torcidas organizadas dos dois times entraram em confronto nas arquibancadas.

Em decorrência da briga, o jogo ficou paralisado durante mais de uma hora, e quem estava esperando assistir um grande jogo, acabou por testemunhar uma grande demonstração de selvageria e violência gratuita. A briga foi horrível, e passou a impressão de que o que estava acontecendo ali era na verdade um confronto entre seres irracionais. Realmente algo muito triste.

Imagem do dia 8 de dezembro de 2013 (dois feridos para cada lado)

Imagem do dia 8 de dezembro de 2013 (dois feridos para cada lado)

O saldo dessa confusão foi que quatro torcedores (dois de cada lado) ficaram feridos, um inclusive teve traumatismo craniano, além de que ambos os times tiveram perdas de mando de campo e tiveram que pagar milhares de reais em multas por causa da confusão. No caso do Vasco foi ainda pior, já que o clube perdeu pelo humilhante placar de 5X1 e acabou sendo rebaixado. No confronto das torcidas, é óbvio, ninguém saiu ganhando.

Por fim, é importante dizer que a violência não é um problema do futebol. A violência é um problema da humanidade como um todo. É muita tolice – e ignorância – dizer que o futebol semeia ambientes violentos e mentalidades agressivas. O futebol é apenas um esporte que reflete aspectos da sociedade, às vezes esses aspectos são bons, e às vezes são ruins. O que deve ser combatido de fato é a violência de toda a sociedade, só aí a paz irá reinar também no futebol.

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Historiador, estudante de jornalismo e amante do futebol desde sempre. Não sabe como seria sua vida se não existisse esse esporte fantástico.

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