Quanto vale garantir o posto de ídolo em um grande clube brasileiro? Será que ainda vale algo? Se a pergunta fosse feita no século passado, facilmente poderia-se concluir que sim, que valia muito ser reconhecido como expoente de um grande clube nacional, ser reconhecido em um grande centro, tudo isso valia muito, início dos anos 2000, a lógica seguiu valendo, mas o sonho das grandes ligas europeias tornou-se mais comum. Entretanto, com o início da década de 2010, o futebol brasileiro entrou em uma descendente mais acentuada, crise técnica, financeira e de ideias, hoje qualquer clube chinês ou árabe vem ao Brasil e leva as principais figuras nacionais.

Algumas situações recentes, mostram o quanto a falta de ídolos é nítida e mais ainda, como o Brasil os perdem facilmente para mercados periféricos, com níveis de futebol baixíssimos. O último a deixar o país em troca dos milhões chineses foi Mano Menezes, desde a seleção brasileira, Mano adquiriu uma repulsa por parte dos torcedores nacionais, nem o trabalho que conduziu o Corinthians ao G-4 em 2014 foi suficiente para apagar as más impressões criadas por ele, – na seleção brasileira e Flamengo -, mas o treinador recebeu chance no Cruzeiro, pegou um time à porta da zona da degola e reconduziu à parte de cima, chegando inclusive a flertar com a Libertadores, quando o trabalho encaixou e 2016 surgia promissor, veio uma proposta da China para seduzir o treinador.

Então que Mano trocou a China Azul pela China, mais que isso, trocou a chance de consagrar-se em um grande clube brasileiro pela independência financeira, o que espanta não é a troca pelos valores que foram, pois foram absurdamente elevados, mas a hipocrisia do treinador que há um mês criticava técnicos que se aventuravam nesses mercados alternativos por dinheiro e a falta de expectativa com o reconhecimento e crescimento no mercado brasileiro. Com o bom trabalho no Cruzeiro, Mano já se credenciava à um belo trabalho no ano seguinte e a chance de consolidar-se na história do Cruzeiro e no futebol brasileiro, mas os milhões falaram mais alto.

Trocou a China Azul pelos milhões da China

Trocou a China Azul pelos milhões da China

Em contrapartida, um personagem que apareceu bem e tornou-se histórico foi Fernando Prass, o arqueiro alviverde colocou-se na história palmeirense como um dos grandes nomes e principal ídolo do clube na década, o goleiro que já era um dos principais do Brasil, consagrou-se em 2015. O primeiro grande passo já tinha sido dado no início do ano, no campeonato estadual, ao brilhar na disputa de pênaltis contra o Corinthians, em Itaquera, na Copa do Brasil, o auge, vitória contra Fluminense e Santos, nos pênaltis, e Fernando Prass brilhando com defesas, além disso foi dele o gol final na disputa fatal contra o time da Vila Belmiro.

Um jogador que já havia sido ídolo no Vasco, optou pelo Palmeiras há três anos, chegou em um momento conturbado, queda palmeirense e falta de um goleiro confiável, Prass chegou e mudou o contexto. Em 2015, assumiu mais que nunca a postura de líder, defendeu o Palmeiras, encarou os rivais, não abaixou a cabeça nas provocações de Ricardo Oliveira e ainda ergueu o troféu contra o rival, na batida do pênalti final, sobrou confiança, aquela confiança que faltava ao palmeirense desde a época em que encarava o Corinthians de igual pra igual na Copa Libertadores, no fim do último século.

Prass foi o líder que o Palmeiras aguardava há anos

Prass foi o líder que o Palmeiras aguardava há anos

Também nessa linha de tornar-se ídolo está Marcelo Oliveira, grande jogador do Atlético/MG, o treinador chegou com rejeição ao Cruzeiro, mas com serenidade e trabalho duro, o treinador logo conquistou a torcida celeste, campeão mineiro e bicampeão brasileiro, o treinador colocou-se como um dos principais nomes da história do Cruzeiro. Início de ano conturbado e demissão, Marcelo foi para o Palmeiras, chegou cercado de expectativas, mas não atendeu o esperado, até ontem, quando mesmo afundado em críticas e com perigo eminente de demissão, o treinador ajudou o Palmeiras a sagrar-se campeão, terceiro título nacional do treinador em três anos e um grande passo para tornar-se ídolo no Verdão, na história palmeirense ele já está com a conquista desta taça.

Marcelo mudou sua história no Palmeiras com a taça

Marcelo mudou sua história no Palmeiras com a taça

Tratados três casos no texto, Prass escolheu ser ídolo, Mano escolheu os milhões, Marcelo é ídolo em um centro e mesmo cercado de dúvidas e críticas, batalha duro e deu grande passo para ser ídolo em outro clube. Não é fácil a decisão, e mesmo depois de escolher entre a idolatria ou os milhões, é difícil cumprir sua missão, muitas vezes quem vai pra China quer voltar, quem fica aqui não aguenta a pressão. Também é possível ser ídolo ganhando bons salários, no Brasil, grandes nomes são recompensados com excelentes salários, – apesar de ainda não competirem com os valores asiáticos -, mas não são decisões fáceis e nem trajetórias fáceis, creio que a vontade de ser ídolo é impagável e nunca pode morrer, para cada Mano Menezes que existam dois Fernando Prass.

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Amante do esporte, presente em uma das tantas curvas da highway. Mineiro, acima de tudo Cruzeiro. Fã de futebol rápido, não necessariamente rasteiro. Acredita na Copa do Mundo como momento máximo do esporte.

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