Desde a última conquista mundial da seleção tupiniquim, em 2002, o futebol nacional vem, gradativamente, enfrentando dificuldades de crescimento e sofrendo ao encarar, – principalmente -, equipes europeias, além da dificuldade de encarar equipes mais frágeis também, tratando do futebol de clubes, nesse século, apenas 4 equipes sul-americanas venceram o Mundial de Clubes. Ao citarmos, especificamente, o futebol brasileiro, percebemos a necessidade de mudanças, – tantas vezes citada por este que vos escreve -, e durante este Campeonato Brasileiro podemos perceber alguns fatores que indicam a importância dessa mudança.

Jogadores de bom nível técnico, o Brasil ainda produz em série e escala industrial, graças à suas dimensões continentais, o país consegue produzir uma diversidade enorme de atletas, de norte à sul, entretanto há uma dificuldade na renovação de dirigentes e treinadores no país, isso muitas vezes mina a chance de diversos atletas terem sucesso. No Campeonato Brasileiro deste ano pode-se perceber o contraste, a tendência pelo novo e a manutenção da velha guarda, o desempenho de ambos está disposto na tabela do Brasileirão, com grande vantagem para as apostas em caras novas.

Em relação aos treinadores brasileiros há uma tendencia na aposta de novos nomes para conduzirem os clubes, analisando a primeira página da tabela de classificação, ou seja, os dez primeiros colocados, percebe-se a grande quantidade de jovens treinadores, Tite e Levir Culpi têm mais tempo de carreira, mas se reinventaram com o passar dos anos e são técnicos de alto nível, Marcelo Oliveira, apesar do bicampeonato brasileiro, é um treinador que surgiu há pouco tempo, além deles também existem nomes como Eduardo Baptista (Sport), Milton Mendes (Atlético/PR) e Roger Carvalho (Grêmio), novas apostas que têm feito trabalhos consistentes para manterem seus times no topo da tabela.

Roger tem surpreendido em grande trabalho no Tricolor

Roger tem surpreendido em grande trabalho no Tricolor

Ao passo que os jovens se destacam, grandes nomes perdem espaço, com exceção de Luxemburgo que está empregado, os outros “medalhões” perderam vez, nomes como Muricy Ramalho, Abel Braga, Oswaldo de Oliveira e outros ficaram esquecidos e não tem perspectivas tão próximas de trabalho, o bom desempenho de treinadores jovens anima os clubes e torcedores, tanto em relação ao desempenho quanto em relação à redução dos gastos salariais. Essas possibilidades fazem do Campeonato Brasileiro 2015, um dos mais disputados dos últimos anos, a briga na parte de cima da tabela tem sido bem equilibrada, com diversos times se alternando do G-4 da competição.

Na contramão dos clubes que têm apostado em “novos” treinadores, o Inter que havia ousado ao escolher Aguirre no início do ano, o demitiu sem grandes motivos, o título gaúcho e a semi-finais da Libertadores não seguraram o treinador no cargo, com pretexto da necessidade de um fato novo, o Inter resolveu demitir seu treinador, primeira partida sem ele e goleada para o rival, agora cogita-se a contratação de um medalhão para o clube, o fato de novo não tem nada, apenas a goleada no clássico. Cruzeiro e Santos, também recorreram ao passado, Luxa e Dorival, – treinadores de sucessos anteriores nesses respectivos clubes -, e amargam o limbo na tabela, sem maiores pretensões na competição.

Medalhões têm perdido espaço

Medalhões têm perdido espaço

Assim como treinadores novos têm se firmado, dirigentes com pensamentos modernos e atitudes diferentes têm se destacado, Eduardo Bandeira de Mello faz no Flamengo uma boa administração, apesar de algumas críticas acerca de seu trabalho, o dirigente tem acertado as contas e feito o Flamengo ajustar a casa, antes acusado de péssimas gestões,o Fla agora parece estar em boas mãos. O Palmeiras de Paulo Nobre também é outro que mostra amadurecimento em relação a gestão do futebol, Alexandre Mattos na direção do mesmo dá apoio importante também, já outros gigantes ainda possuem presidentes que são novos apenas no cargo, mas nos pensamentos seguem a mesma linha adotada no século passado.

Mantendo essa linha ultrapassada, está o Vasco, – o clube com a situação mais complicada entre os gigantes presentes na série A 2015 -, afundado em dificuldades financeiras, o clube carioca vive uma crise sem esperança de melhora, após uma década gloriosa em 1990, o clube não conseguiu se atualizar e na esperança de melhora fez a aposta no passado, em Eurico Miranda, o presidente que já venceu muito pelo clube, apesar de todos os poréns, não parecia ser e não tem se mostrado a melhor opção ao Vasco, a obsessão pela hegemonia estadual fez o presidente esquecer o foco no principal campeonato do ano e o Vasco corre riscos reais de sofrer seu terceiro rebaixamento em oito anos. Além disso, o treinador escolhido, Celso Roth, também representa a velha guarda brasileira, sua demissão tem sido cogitada e para seu lugar quem poderia assumir seria o delegado Antônio Lopes, – de passado glorioso pelo Vasco -, treinador que não trabalha na função há anos e não possui grandes trabalhos neste século XXI.

Flamengo aposta em uma nova forma de gestão

Flamengo aposta em uma nova forma de gestão

Não é regra que novos nomes trarão bons trabalhos, mas 2015 tem nos mostrado que novas apostas podem ser a salvação de muitos clubes, com trabalhos sólidos e recheados de boas ideias, os clubes podem se reinventar no cenário nacional a fim de alçarem voos exteriores. Seja na industrial São Paulo, no pujante Rio de Janeiro, na agitada BH, na fria Porto Alegre ou em qualquer cidade com menores investimentos futebolísticos no Brasil, a adoção de ideias novas é essencial, tanto para o crescimento no desempenho quanto redução nos gastos, também é a forma mais viável que o Norte/Nordeste tem de competir com o Centro-Sul do país, algo que o Sport/PE tem mostrado.

A mudança para o novo é algo difícil e causa receio de grande parte da torcida e das pessoas que dirigem os clubes, mas no ponto em que chegamos, só as mudanças podem trazer alento e esperança, aos poucos elas têm ocorrido e devido ao sucesso têm sido aprovadas, que o Vasco não precise cair para aprender as lições e que Sport/PE e Atlético/PR não precisem de vagas no G-4 para confirmarem o sucesso de seus trabalhos. Nos giros do mundo da bola, só uma coisa se mantém igual, a bola na rede, o toque fatal, que os torcedores possam vivenciar o novo, mas contemplando o que mais querem, gols em escala industrial, que cada vez saiam mais dos holofotes treinadores e dirigentes ultrapassados, apoiados em escudos em formato de notas oficiais.

*Título retirado de um trecho da música “Pose”, dos Engenheiros do Hawaii.

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Amante do esporte, presente em uma das tantas curvas da highway. Mineiro, acima de tudo Cruzeiro. Fã de futebol rápido, não necessariamente rasteiro. Acredita na Copa do Mundo como momento máximo do esporte.