Era uma vez Ottorino Barassi e Gabriel Hanot.

É sempre o mesmo blá blá blá que cansa! O Corinthians foi campeão mundial em 2000? O Palmeiras foi campeão mundial em 1951? Eu te respondo: ambos foram campeões. É verdade que a Fifa admitiu que errou no formato do Mundial vencido pelo Timão, mas isso não quer dizer que o aquela defesa do Dida, na final contra o Vasco da Gama, não valeu de nada. Talvez muitos minimizam a conquista alvinegra pelo fato da final ter acontecido contra o Vasco, mas isso aconteceu graças ao mérito das equipes brasileiras. Na primeira fase, o Vasco venceu o Manchester United por 3 a 1, enquanto o Corinthians empatou em 2 a 2 diante do Real Madrid, teve melhor aproveitamento nos outros jogos e terminou como líder.

Em uma competição com clubes como Manchester United e Real Madrid, foram os brasileiros de São Paulo e Rio de Janeiro que apresentaram um melhor futebol dentro de campo. Se a final daquela Mundial tivesse sido entre Real Madrid ou Manchester contra Corinthians ou Vasco, muitos diriam que foi um baita campeonato! É a santa ignorância do povo brasileiro.

Mas não quero defender o Corinthians, que não precisa ser defendido. Além do mais, os corintianos saíram da fila e venceram Libertadores e Mundial de 2012. Eu quero é defender o Palmeiras, injustiçado pela ignorância. Eu quero, antes disso, te expor um exemplo bem claro sobre organização de competições.

Suponhamos que você crie uma festa. Uma festa que terá a primeira edição e é seu desejo que tenha muitas outras e que se torne uma das grandes festas da cidade. Sempre que alguém te perguntar algo, você vai dizer que a primeira edição foi um teste, e, na segunda edição, poderá dizer que o teste foi um sucesso, um fracasso e as mudanças que terão que ser tomadas. Então você cria a festa que vai acontecer no espaço X, com X litros de cerveja gelada, X quilos de carne, X pessoas, X número de banheiros químicos e X número de bandas. Chega o dia esperado, o dia da festa. Pessoas para todos os lados, seguranças, pessoas servindo cerveja e comida, churrasqueiro profissional, bêbados usando banheiros químicos e por aí vai. No dia seguinte, você vai futricar as redes sociais para saber o que as pessoas acharam da sua festa e vê comentários como “tinha que ter mais banheiros químicos”, “a banda era ruim”, “pouca carne e cerveja”, “cerveja quente e carne fria”, “pessoas desagradáveis e desorganização”. Diante disso, você vai fazer o quê? Anotar tudo e melhorar na próxima edição, correto? Vai melhorar a cerveja, a comida; melhorar o nível das bandas, colocar mais um banheiro químico; organizar melhor seu evento.

O futebol é a mesma coisa, meu amigo.

Em 1951, quando o Palmeiras conquistou aquele enfadonho Torneio Mundial de Campeões, não havia nem sequer Uefa, órgão que cuida dos interesses do futebol europeu. O italiano Ottorino Barassi se juntou com o francês Gabriel Hanot e com a antiga CBD, que hoje é CBF, e criaram a competição que uniu duas forças do futebol: a Europa e a América do Sul. Teve time português, iugoslavo, brasileiro, uruguaio, italiano e até romeno. Era um teste. Era a primeira edição da sua festa. A competição foi um sucesso! O Palmeiras derrotou a Juventus, na final, por 1 a 0, diante de 100 mil torcedores que superlotaram o Maracanã. Foi o segundo Maracanazzo da história, e digo isso sem medo de errar.

Tudo que nasce depende de uma origem. Você nasceu graças ao sexo de seus pais, assim como eu e todo ser humano. A Coca-Cola nasceu a partir de diversas fórmulas, assim como qualquer produto. Tudo teve um teste, uma origem, para ser possível medir se daria certo ou não. E o Mundial vencido pelo Palmeiras deu. Deu tão certo que, em 1954, Hanot decidiu se juntar com outro francês, Jacques Ferran, e juntos criaram a Liga dos Campeões, que, durante cinco anos, se chamou Copa Europeia. O Real Madrid ganhou todas. Foram cinco edições, cinco teste, que deram origem a Liga dos Campeões, que mexe com nossas emoções a cada nova temporada.

O Palmeiras foi campeão Mundial de 1951, pois, para a época, onde nem mesmo existia uma organização para cuidar dos interesses dos clubes europeus, foi um teste para medir se seria possível reunir equipes de diferentes continentes em uma única competição. Em 1999, a Fifa anunciou que seria realizado o primeiro Mundial de Clubes em 2000. Era a sua primeira festa, a primeira edição. Era um teste. Reuniu Real Madrid e Manchester, duas forças da Europa, Corinthians e Vasco, duas forças da América, mais Al Nassr, da Arábia Saudita, Raja Casablanca, do Marrocos, Necaxa, do México, e South Melbourne, da Austrália. Depois de realizar a competição, a Fifa correu para as redes sociais para ver o que as pessoas tinham achado, assim como você correu para ver o que haviam pensado da sua festa. Diante das reclamações, a Fifa buscou melhorar na edição seguinte, e assim o Mundial de Clubes passou a ser um sucesso.

Jacques Ferran foi quem ajudou na criação do Campeonato Sul-americana de Campeões, que deu origem a Libertadores da América. Ele usou sua experiência, se uniu com Hanot e sua experiência diante do Mundial vencido pelo Palmeiras, e criaram a Copa Europeia, que deu experiência o suficiente para a criação da Liga dos Campeões, que deu experiência o suficiente para o primeiro Mundial de Clubes, que deu experiência para a organização do torneio de clubes do Mundo.

Quando alguém te perguntar se o Palmeiras foi campeão Mundial de 1951, torcedor alviverde, pode encher a boca e dizer que sim. E que, além disso, o Palmeiras foi o primeiro campeão mundial e jogou diante de 100 mil pessoas no Maracanã. Se alguém te perguntar se o Corinthians foi campeão Mundial em 2000, torcedor alvinegro, pode encher a boca e dizer que sim. E que, além disso, o Corinthians foi o primeiro campeão mundial da competição da Fifa. Quando alguém vier com qualquer dúvida sobre esses assuntos, senta com essa pessoa e começa a conversa da seguinte forma: “Era uma vez o italiano Ottorino Barassi”.

Era uma vez Ottorino Barassi, e foi lá onde tudo começou.

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