Entrar para a história de um clube parece fácil. Basta marcar um gol em uma final importante, conquistar alguns troféus e entrar em sintonia com o sentimento da torcida. Mas não é. A gente sabe disso. E você percebe o quanto é difícil, quando imagina que um jogador conseguiu simbolizar o renascimento de um gigante a um presente de glórias e alegrias.

Mas o destino, como bem frisa a dupla Milionário e José Rico, na música Sonho de Caminhoneiro, é cruel e traiçoeiro (QQD também é cultura popular). Na madrugada de 7 de junho de 2014, o eterno capitão colorado Fernandão, partiu rumo ao panteão dos heróis. Como é de se imaginar, seus feitos e sua história no Internacional, que já eram grandiosas, tomaram uma proporção ainda maior, como é comum quando alguém que simboliza tanta coisa, nos deixa tão precocemente.

Supervalorizamos momentos, criamos uma aura de imortalidade ao homenageado e lembramos de coisas que nem tínhamos acompanhado com a devida atenção na época. Mas o mais curioso, é que basta olhar a trajetória de Fernandão, para perceber que essa relação entre clube, jogador e torcida não é em vão. Não é ultradimensionada. Tem o tamanho exato do clube, de sua torcida, e de seu ídolo. Gigantes! E seu início no Inter talvez seja tão maravilhoso, quanto qualquer outro momento dessa história.

Há exatos 11 anos, Fernandão entrava em um jogo oficial com a camisa vermelha do Inter. Mas não era um jogo qualquer! Um amistoso. Era um Gre-Nal! Aliás, não era um Gre-Nal normal. Até aquele momento, 998 gols haviam sido marcados na história do clássico gaúcho. A expectativa para o milésimo gol da história do confronto de número 360 entre Grêmio e Internacional eram enormes.

O treinador do Inter era Joel Santana. Na preleção nos vestiários do Beira-Rio, mostrou aos jogadores uma gravação do técnico gremista José Luiz Plein falando que iria “arrumar a casa” no Gre-Nal (lembrando que o Grêmio já brigava pelo rebaixamento). Joel arrancou a fita, jogou-a no chão e garantiu: “Não vai arrumar porra nenhuma!”. O Rei da Prancheta iniciou a partida com Vinícius e Wilson na defesa, Bolívar e Alex nas laterais. Passou Élder Granja para o meio, e avançou Danilo para fazer dupla de ataque com Rafael Sóbis. Fernandão, recém chegado da França e regularizado às pressas, ficou como opção no banco de reservas.

Na primeira etapa, muita pressão colorada. A frágil defesa tricolor sofria com as diabruras dos jovens Danilo e Sóbis. Mas a bola teimava em não entrar. No intervalo, Joel, ele mesmo, tido como folclórico, mudou a história do Inter, dos Gre-Nais, e pretensiosamente digo, do futebol! Wilson sentiu. Ao invés de fazer uma troca de zagueiro por zagueiro, resolveu partir pra cima do Grêmio. Passou Granja pra direita, Bolívar pra zaga, e colocou Fernandão em campo, mais precisamente para ser o armador do time.

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Próximo aos 8 minutos, Tavarelli cobra falta de sua área. Pelo alto, Edinho a devolve. A bola fica com Michel Bastos, que se atrapalha todo. Fernandão chega para roubar a bola mas é acertado. Na cobrança, Alex levanta na área, e Vinícius acerta cabeceio que encobre Tavareli! 1 a 0! 999 gols no clássico!

O Grêmio tenta se soltar em busca do empate mas é segurado por um time que marca a saída de bola e que não alivia na dividida. O desespero tricolor acaba beneficiando o Inter, que parece estar cada vez mais próximo do histórico gol

Aos 33, Clêmer bate tiro de meta. Os dois times rebatem a bola por cima até sobrar nos pés de Danilo, pela direita. O camisa 10 colorado corta para o meio e encontra Fernandão de pivô, que muda o eixo do jogo para a esquerda. Alex tenta o cruzamento e a zaga gremista manda a bola novamente para a direita do ataque colorado. Élder Granja tem tempo para chegar na bola, dominá-la, e calcular o cruzamento perfeito. A bola viaja com precisão até o local em que Fernandão acabara de se deslocar. Ele salta cerca de 60 centímetros e cabeceia no canto direito de Tavarelli. Estava cravado no fundo da rede do Beira-Rio o gol 1000 do Gre-Nal!

“Gravei meu nome na história dos Gre-Nais. Prometo bastante garra e empenho dentro de campo sempre”. Não era uma promessa. Era uma previsão. 

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