“E lá vem mais, e lá vem mais, olha a bola tocada, virou passeio… Gol da Alemanha!”

Foi assim que Galvão Bueno, – o mais conhecido narrador brasileiro desde o século passado -, narrava, incrédulo, o quarto gol alemão há um ano atrás, esse gol foi, – possivelmente -, um dos que mais doeu naquela partida, a partir desse momento, o que poderia ser considerada uma derrota normal, tornou-se goleada, mais tarde o massacre viria em forma de mais gols. O replay do terceiro gol ainda estava sendo passado, os comentaristas analisavam o lance, quando Kroos roubou a bola de Fernandinho, – completamente perdido -, e tocou para Khedira, o resto todos já sabem.

Completamente perdido em campo, taticamente, tecnicamente e emocionalmente, o Brasil foi engolido pela Alemanha, o gol citado é um retrato disso, um time apto à jogar e outro sem norte, desatento e frágil ao passo que os europeus estavam sedentos pela vitória. A qualidade dos alemães na vitória é inquestionável, mas o despreparo brasileiro pesa mais, Argélia, França e Argentina fizeram jogos dignos, somando os 270 minutos, a Alemanha só anotou um gol, de bola parada, contra a França.

"E lá vem eles de novo..."

“E lá vem eles de novo…”

Em um reinaugurado Mineirão, que no ano anterior havia sido palco de glórias mineiras, – o Cruzeiro venceu o Brasileirão e o Galo conquistou a Libertadores -, o escrete nacional não conseguiu manter os dias felizes, na Copa das Confederações, o Brasil também havia batido o Uruguai na semi-final, nesse mesmo estádio. Competição essa que só serviu para aumentar a soberba brasileira, após um jogo fantástico contra a Espanha, – que na Copa do Mundo mostrou sua total decadência -, a comissão técnica se inflou e alegou estar com uma mão na taça, tanto faz, uma mão na taça significou 100% fora.

O público brasileiro, sempre ávido à eleger heróis e vilões, teve um grande leque de opções de vilões para serem escolhidos, quem já condenou Barbosa, Zico, Dunga, Roberto Carlos, Felipe Melo e outros, não poderia se sentir mais confortável para elencar os personagens, Felipão, Parreira, Marin, Dante, Fernandinho, David Luiz, – incrivelmente, esse conta com o apoio de boa parte da torcida nacional, apesar das falhas incontáveis cometidas -, Bernard, Marcelo, Fred e a fantástica Dona Lúcia, – até esse papelão aconteceu -, puderam ser escolhidos como os antagonistas do massacre. Os alemães tiveram até a possibilidade de se poupar na etapa final, o que não minimiza as melhores atuações já vistas de Kroos e Khedira.

Um ano do vexame de julho passado, dois fatos ocorridos na semana chamam muita atenção, primeiro a entrevista de Daniel Alves, o lateral criticou duramente a participação nacional na última Copa do Mundo, criticou a comissão técnica por não conseguir dar  nenhum suporte tático ao time e criticou os dirigentes da confederação por não contratarem Guardiola, uma vez que o mesmo se ofereceu para treinar o Brasil, recebendo salários apenas se chegassem ao resultado esperado pelo povo brasileiro. O discurso entoado pela comissão, da “alegria nas pernas”, do “Brasil no topo da hierarquia” e da “mão na taça”, nunca fizeram sentido na cabeça de ninguém, nunca fizeram milagre nos pés cansados de correr sem alguém para guia-los.

O Mineirão sofreu com a maior derrota da história brasileira

O Mineirão sofreu com a maior derrota da história brasileira

O segundo fato é a reunião feita pela CBF para rediscutir o futebol nacional, o convite foi feito apenas à ex-técnicos da seleção, como todo respeito a história destes senhores, mas Parreira, Zagallo e outros convidados não estão aptos à discutir o futebol praticado no século XXI, o “velho lobo” acredita, inclusive, que o Brasil passará fácil pelas eliminatórias e tem tudo para ser campeão mundial, alegando à todos que “terão que o engolir”. Alguns convidados como Mano Menezes, Leão e Felipão não compareceram, mas não fizeram e nem farão falta, Felipão que já elogiou Pinochet, ao dizer que ele fez muito pelo Chile, deve acreditar que o 7×1 foi, realmente, apenas um apagão e o título de 2002 o mantém em um pedestal, se Felipão é fã do ditador chileno, Parreira defende a CBF, segundo suas próprias palavras, “O Brasil que deu certo”. Não há como discutir com esses homens.

Se os heróis, – pra mim heróis por tudo que representaram ao futebol nacional -, de 1950 e 1982 tiveram seu peso, – o qual jamais deveriam ter carregado -, tirado das costas, os personagens de 2014 não conseguirão apagar o vexame tão fácil, apesar do Brasil ser penta campeão mundial, de ter vários craques no hall de grandes jogadores da história, não se pode viver das glórias do passado, como o próprio hino brasileiro alerta. Por tudo que já fizeram, esses senhores citados anteriormente deveriam se afastar, para preservar sua história particular e a da seleção, Cuca, Levir, Marcelo Oliveira e Tite, mostrando tanto trabalho nos últimos anos, eles sim deveriam discutir taticamente e tecnicamente o que é praticado no país. Já a estrutura do futebol nacional pode e deve ser discutida por muita gente, mas não pode ser capitaneada por Gilmar Rinaldi, alguém que era empresário de jogadores há alguns meses e hoje é dirigente da CBF, ele mesmo que transferiu a culpa do vexame na Copa do Mundo pelo uso do boné com os escritos “Força, Neymar!”.

Utilizando um pouco da cultura nacional, Humberto Gessinger, em uma das músicas dos Engenheiros do Hawaii, afirma que “Nos livros de história seremos a memória dos dias que virão, se é que eles virão…”, para os dias futuros chegarem, muito terá que ser feito, e longe das figuras do passado, pois preservadas em um museu elas serão bem mais valorizadas.

Um ano do 7×1 e ele ainda está muito vivo, espero que não precisemos de outro para percebermos que não foi um apagão, mas sim uma forma de conceber o esporte que está atrasada há décadas e precisa ser remodelada, sem os nomes do passado, mas com pessoas capacitadas no presente para produzir os heróis do futuro. Se no placar 7×1 foi pouco, para cada brasileiro que levou esse dia a sério, ele ainda dói muito.

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Amante do esporte, presente em uma das tantas curvas da highway. Mineiro, acima de tudo Cruzeiro. Fã de futebol rápido, não necessariamente rasteiro. Acredita na Copa do Mundo como momento máximo do esporte.