Pela primeira vez na história, o Chile venceu a Copa América, jogando em casa e com o apoio maciço da torcida, os Rojos comemoraram o título da competição, guiados pela geração de jogadores de futebol mais talentosa da história do país, o time encaixou e com grandes atuações ficou com a taça que o país esperava há décadas. Uma vitória do Chile, mas também do futebol latino-americano, além da taça veio o bom futebol, aliás, uma aula de bom futebol, os chilenos apresentaram a sua versão de futebol completo, mostrando que é possível realizar tais proezas, – mesmo quando as peças não são as de maior destaque no planeta -, com muito trabalho.

A geração de atletas chilenos é muito boa, entretanto, não existe o craque inquestionável no time, Alexis Sánchez, hoje estrela no Arsenal, sempre foi ofuscado pelo argentino Messi, em Barcelona, já Vidal é destaque da Juventus, mas muitas vezes não recebe o mesmo tratamento de craque do time que Pirlo, Pogba e Tévez, – argentino que não atuou na final por opção técnica -, recebem. O goleiro Bravo e o volante Aránguiz, apesar de muito bons, não são tratados como super-craques. Outras peças como Isla, Medel, Valdívia e Vargas brilharam na seleção chilena como nunca o fizeram, apesar de bons jogadores, nunca foram indiscutíveis por onde passaram, mas na Copa América mostraram seu valor, se houve essa sintonia entre os jogadores e um time fortíssimo foi formado, muito se deve à Jorge Sampaoli.

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A América é chilena pela primeira vez

A América é chilena pela primeira vez

Seguindo a escola de Marcelo Bielsa, seu discípulo mais fiel, Jorge Sampaoli, montou um timaço, 3-4-3, 3-5-2 ou 3-4-1-2, pouco importa o esquema, o treinador reproduziu no Chile o que muitos chamam de futebol total, posse de bola, marcação pressão, zaga adiantada para compensar a baixa estatura e toques rápidos, a seleção chilena que começou a ser moldada em 2007 por Bielsa, chegou ao ápice com seu pupilo, sete anos depois, com a mesma base, com o mesmo conceito, mas com a execução aprimorada. Além disso, o técnico extraiu o melhor de cada atleta, como dito, alguns que não são destaques absolutos em suas respectivas equipes funcionaram nas mãos de Sampaoli.

Durante a competição, o Chile mostrou todo seu arsenal de jogadas, Vidal superou seus problemas extra-campo, para brilhar no torneio, o meio-campista foi eleito o melhor jogador da decisão e melhor jogador da competição, no ataque, se Sánchez ficou sem os gols que lhe são costumeiros, Vargas compensou o jejum e foi artilheiro da equipe na competição, o atleta que brilhou no futebol sul-americano, apareceu bem na competição entre seleções. Quem também surpreendeu à todos foi Valdívia, livre de lesões, o meia foi decisivo na campanha chilena e importantíssimo em alguns jogos, fez em um mês o que a torcida palmeirense espera dele há anos.

A Copa do Mundo, no ano passado, já havia sido um ensaio para o Chile, classificado em seu grupo ao eliminar a campeã mundial, Espanha, a equipe caiu para o anfitrião, Brasil, nos pênaltis, por isso contra a Argentina, o receio dos chilenos de encarar outra disputa na marca da cal, enquanto a seleção de Messi vinha de vitórias nas últimas disputas, o Chile mantinha más recordações, mas na disputa derradeira, os fantasmas foram exorcizados, quatro belas cobranças que aliadas à dois erros argentinos deram a vitória ao Chile. No mesmo estádio nacional, palco de tantas torturas, a seleção chilena fez a torcida local esquecer, por pelo menos alguns minutos, qualquer pesadelo que Pinochet um dia os causou, – finalmente -, os chilenos comemoraram sua vitória em Santiago.

Sampaoli montou o melhor Chile da história e o primeiro campeão

Sampaoli montou o melhor Chile da história e o primeiro campeão

Voltando ao treinador, Sampaoli tem mostrado à América nos últimos anos que tanto na técnica quanto na tática é possível equiparar-se às potências europeias, nas últimas competições algumas seleções deixaram seus legados, a Espanha de Xavi e Iniesta com seu tiki-taka, a Alemanha de Neuer, Lahm e Schweinsteiger com o futebol de posse e intensidade, e agora, o Chile deixa sua marca apresentando um futebol de marcação pressão, jogo no campo ofensivo, isso tudo com peças mais escassas que as equipes citadas. Em 2011, Sampaoli já havia apresentado seus predicados ao montar uma LaU espetacular, campeã da Copa Sul-Americana, agora mostra um Chile forte campeão da Copa América, uma marca importante no times de Sampaoli é a versatilidade, jogadores conseguem atuar em diversas posições durante o jogo, o time consegue variar seu esquema e manter intensidade no campo de ataque.

O que fica da campanha chilena, – obviamente- , é o título, a taça aguardada há muito tempo, mas também fica o futebol apresentado, a América pulsa e também joga, um exemplo à ser seguido pelo continente, os chilenos mostraram que é possível praticar futebol de alto nível em qualquer instância, Sampaoli deu o caminho, contra um Uruguai defensivo ou contra uma Argentina de craques, o Chile foi quem jogou e anulou o adversário, anulou na posse de bola, anulou no sufoco à zaga adversária. Precisamos de mais Chiles, de mais Sampaolis, equipes e treinadores sem medo de perder, mas com vontade de jogar, de encantar, de dar à torcida o sonho de ganhar, e porque não mais Sánchez, se o atleta não brilhou na competição, foi ele quem anotou o gol do título na final, o pênalti derradeiro, com uma cobrança lenta e sofrida como tinha de ser, se faltou Messi ser Maradona na final e com uma dose de egoísmo carregar todo um país, não faltou à Alexis ser chileno e com a alma fervendo pela vitória, com um toque sutil, tirou o peso da taça das costas de um país, La Roja agradece.

Chilenos inflamaram o Estádio Nacional de Santiago

Chilenos inflamaram o Estádio Nacional de Santiago

Se, – às vezes -, foi difícil vencer na técnica, nunca lhes faltou coração, os mesmos chilenos que um dia foram calados em Santiago, gritaram eufóricos pela conquista, aos pés da Cordilheira dos Andes ficaram os argentinos, pois os chilenos já estão no topo há muito tempo, agora com a taça, mais difícil ainda será tirá-los de lá.

 

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Amante do esporte, presente em uma das tantas curvas da highway. Mineiro, acima de tudo Cruzeiro. Fã de futebol rápido, não necessariamente rasteiro. Acredita na Copa do Mundo como momento máximo do esporte.