Não sou o tipo de cara invejoso. Não cobiço a mulher de ninguém, o carro, casa, cabelo, corpo, roupa, nome, voz, pensamentos, ideais. Não sou invejoso. Nunca fui. Mas sempre senti aquela dor no cotovelo quando o assunto é futebol. Talvez pelo fato de eu ser apaixonado por tudo que diz respeito ao mundo da bola, e adorar jogar futebol, eu sempre despertei uma pontinha de inveja quando via jogadores de futebol.

Eu me lembro que a primeira vez que tive profunda inveja no futebol foi quando vi o meia Danilinho no Atlético Mineiro. Isso porque ele cresceu na minha cidade, em São José do Rio Preto. O vi pela cidade uma ou duas vezes, e fiquei inconformado com o fato de alguém sair do interior de São Paulo para jogar num time grande lá de Minas. “Poderia ser eu”, pensei, mas eu tinha apenas uns 12 anos.

Depois, em Londrina, eu sabia que não seria jogador. Primeiro porque nunca tive contatos e porte físico. É aquele coisa do gordinho que quer ser jogador, mas também quer devorar o prato de macarronada. No colégio, tinha uns dois ou três molequinhos que se achavam, pois jogavam em timinhos de Londrina e região. Um jogava no amador, o outro era do Paraná Soccer Techinical Center, centro de treinamento responsável por formar jogadores como Dagoberto, Alan Bahia, Fernandinho, Jadson e Kleberson. Mas dos meninos que conheci no colégio, nenhum se tornou jogador. Ainda jogam, mas precisam dividir essa função com um trabalho comum, de camisa social e mesa na sala com ar-condicionado.

Senti inveja de outros jogadores. Senti inveja do Adriano Imperador, em uma Copa das Confederações que ele jogou demais! Também senti uma pontinha de inveja de um jogador da Coreia do Norte, chorando no hino nacional do seu país, na Copa do Mundo de 2010. Também de Ronaldinho Gaúcho, mas no caso de Ronaldinho era muito maior a minha admiração. Afinal, ele é um dos meus maiores ídolos do futebol, assim como Pirlo e Thierry Henry.

Quando comecei a trabalhar com jornalismo esportivo, em 2012, ciente de que não me tornaria jogador, eu comecei a ter maior contato com o futebol, mas com a parte de assessoria, que reúne outros profissionais frustrados. Lá, precisei entrevistas jogadores de categorias de base que se achavam importantes demais. Lembro que fui entrevistar um garoto do Palmeiras, que jogaria a Copa SP de Futebol Júnior, e recebi um “não quero conversar com seu veículo de comunicação”. Um outro, do São Paulo, que não vou falar o nome, pois ele está entre os profissionais hoje, me perguntou se eu era da Globo. Quando eu disse que não, ele simplesmente não me respondeu nunca mais.

Mas de todos esses, um cara que eu sinto admiração e inveja é Neymar. Meu Deus do Céu! O Neymar tem tudo. O Neymar é só dois anos mais velho do que eu e já conquistou o mundo. Conquistou Campeonato Paulista, Brasileirão, Libertadores; jogou Mundial de Clubes; fez gol pela Seleção Brasileira, jogou uma Olimpíadas em Londres, viajou para Londres (eu nunca sai do Brasil); viajou para a Espanha, ganhou milhões; é jogador do Barcelona; conquistou Campeonato Espanhol, Copa do Rei, Champions League, foi artilheiro da Champions também; conheceu o Messi, conheceu o Thierry Henry, jogou contra o Pirlo, Buffon e São Marcos; namorou atriz global, pegou uma gata do Instagram, pegou mais uma, duas, três, quatro, cinco, seis. Dá as melhores festas. Torra dinheiro. Tem carro do ano, mansão, família estruturada. Tem uma camisa do Barcelona a cada novo modelo que é lançado. Tem contrato com patrocinadores; aparece na televisão, vai no Faustão, vai em show de gente famosa; tira fotos feliz, bomba no Instagram. Milhares de seguidores. É amigo das celebridades. Estampa capa de jornal, usa joias. Neste meio tempo, já pegou outra gata dos Instagrams da vida.

Mas acima de tudo isso, o Neymar se tornou um jogador de futebol. Talvez nunca tenha tido que escolher entre a bola ou o prato de macarronada, mas faz o que gosta, e joga como gosta. Dá chutão, faz dancinha, dá chaleira em final de Copa do Rei; foge de briga. Faz o que gosta.

Aí meu cotovelo.

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