O cinzento dia 25 de junho de 1995 guardou nos céus do Rio de Janeiro, em meio às nuvens escuras e gotas de chuva, o desfecho mais emblemático da história dos Fla-Flus. Sim, não poderia ter emergido de outro lugar que não o berço das estrelas o gol de barriga que fez o Fluminense campeão carioca. Perto de completar 20 anos, o clássico decidido pelo umbigo de Renato Gaúcho até hoje ecoa pelas entranhas do Maracanã, que volta a receber as duas equipes neste final de semana no momento que o certame estadual tenta afastar-se do marasmo por quem tanto nadou.

Com mais de 120 mil pessoas catando espaço num pequeníssimo Maraca, Flamengo e Fluminense encontravam-se naquela tarde com motivos distintos para o mesmo objetivo. Do lado das Laranjeiras, sob a batuta e a prancheta do Papai Joel, que ainda não falava inglês, havia o consenso de que era chegada a hora de estancar o jejum de nove anos sem mandar no bairro. Pelas bandas da Gávea, o centenário do clube não poderia passar sem a conquista do estadual, especialmente quando se tinha Luxa na casamata, Branco e Sávio em campo e Romário na pequena área.

O primeiro tempo poderia muito bem ter sido escrito pelo mais tricolor dos roteiristas ou cineastas. Tudo dava certo ao Fluminense. Por volta dos 30 minutos de jogo, o próprio Renato Gaúcho desarmou o flamenguista Willian no meio campo fazendo com que a bola se oferecesse timidamente ao sempre lúcido Aílton. Este, ao esticar na esquerda e dar vida à tabela entre Leonardo e Rogerinho, possibilitou ao mesmo Renato – pai da jogada – empurrar para as redes de Roger e ir ao solo como um saco de batatas. Antes do carequinha Leo Feldman trilar o apito para dar fim à primeira etapa, o volante tricolor Márcio Costa bateu de muito longe e fez com que a redonda desencontrasse o centro das mãos ensaboadas de Roger para se oferecer a Leonardo ampliar. O 2×0 fazia justiça ao melhor time e tirava a emoção da final. Ou não.

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(Foto: Divulgação)

 

O início do período complementar de partida não dava indícios de que muita coisa mudaria. Lento, previsível e molhado, o Flamengo, por mais que tivesse o controle do jogo, não se aproximava do gol de Wellerson. Era hora do baixinho trabalhar. Aos 26, em um lance tão feio quanto o dia lá fora, a bola marcou encontro com Romário depois de bater em inúmeras canelas: ali ele não perderia nem se o lance fosse daqui a 15 minutos. Descontava o Flamengo e, agora sim, punha fogo no jogo. Sem deixar que o ímpeto rubro-negro esmorecesse, Fabinho, cinco minutos depois, tratou de igualar os números e devolver momentaneamente a taça ao Fla, em um lindo gol ao limpar com a perna direita e fuzilar com a esquerda.

Correndo contra o relógio, que teimava em correr, o Flu passou a ser todo ataque na reta final de jogo. Precisava de um gol para dar fim ao jejum incômodo de quase uma década sem vencer um Carioca. Precisava de um gol, nem que fosse de barriga. Então Ailton recebeu na direita. Os ponteiros no punho de Feldman indicavam 42 minutos e o 43 estava próximo. Ailton avançou a linha de fundo, cortou o marcador, cortou de novo e mandou um tiro de meta à meia altura para o meio da área. Numa bola que fatalmente correria para fora, Renato Gaúcho esticou-se para, de barriga, dar um leve desvio e empurrar para dentro. O título carioca de 1995 veio da barriga santa, como Renato costuma chamar.

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