O futebol ele é famoso por vários motivos, leitores. Além de ser o esporte número #1 do povo brasileiro, ele dá liberdades que só o futebol dá. Me lembro quando eu era bem menor, no ano de 2005, e meu pai me levou para ver o primeiro jogo do Palmeiras, no extinto Palestra Itália, em São Paulo. Em casa, minha família, religiosa, sempre foi bastante cautelosa com o uso de palavrões, e aprendi a me segurar (hoje não mais. Eu gosto de palavrões). Mas no Palestra Itália, junto daquela massa alviverde, eu não me preocupei em xingar os torcedores e jogadores do Fluminense e também do Corinthians, que nem estava em campo.

“Doutor, eu não em engano. Filha da p*** é corintiano”. Um dos hinos da torcida do Corinthians canta mais ou menos isso. “Doutor, eu não me engano, meu coração é corintiano”. Como de praxe, pelo simples prazer da zombaria, a torcida do Palmeiras inverteu o cântico para afrontar os torcedores do maior rival.

Eu cantei que todo corintiano é filha da p*** naquela tarde de domingo. Eu sempre uso como argumentos que corintiano é bandido, são-paulino é veado e santista é um peso morto no mundo. É uma realidade? Evidente que não. Tenho parentes e amigos corintianos, tenho parentes e amigos são-paulinos, tenho amigo santistas, e nenhum deles são bandidos, gays ou inúteis.

Sabe qual é o nome disso, leitor? Futebol! Futebol e a liberdade que só ele dá.

Desde os tempos antigos, zombar como forma de irritar sempre foi uma obra prima do futebol, e isso faz bem ao esporte. Um dos pontos altos do esporte mais aclamado no nosso território é a encheção de saco. É gritar Olé no estádio, é vaiar o jogador que já passou pela sua equipe, é rir de uma jogada ridícula de algum atleta, é mandar o atacante do seu time que está mal em campo tomar no c*, é esperar ansioso pela segunda-feira, para zoar todos seus colegas de trabalho ou escola que torcem para o time derrotado. E isso é saudável.

Mas há quem esteja tentando matar tudo que é saudável no futebol. Na quarta-feira, Palmeiras e São Paulo se enfrentaram. Antes do jogo, a jornalista Gabriela Moreira, da ESPN, foi entrevistar um torcedor palmeirense e, na entrevista, o torcedor, involuntariamente, chamou os jogadores do São Paulo de “bichas”. Nas arquibancadas, a torcida do Corinthians, e também do Palmeiras, tem o costume de chamar Rogério Ceni de bicha. Ele é? Evidente que não. Nós sabemos disso. Vampeta declarou que são-paulino era bambi e brincadeira pegou! A torcida do Corinthians declarou que a torcida do Palmeiras era um bando de porco, e a festa no chiqueiro dura até hoje. Mas os moralistas e extremistas querem estragar a graça das arquibancadas.

Gabriela Moreira cometeu um erro burro e deu uma dura no torcedor, dizendo que, em pleno século que vivemos, ele precisava expandir a mente. O torcedor não havia se declarado homofóbico, ele estava apenas minutos antes de entrar no estádio, ou seja, ele estava no clima do futebol e da liberdade que só o esporte dá. Gabriela Moreira pode ter repreendido o torcedor na boa vontade, mas a entrevista foi um prato cheio para os moralistas soltarem o verbo contra os xingamentos nos estádios. Me desculpe, mas vocês não vão conseguir minar os detalhes do futebol.

Torcedor não está em campo para provocar com uma pedalada à lá Robinho, com um ‘olha prum lado e toca pro outro’ à lá Ronaldinho, com uma comemoração ou entrevista coletiva. Torcedor tem apenas as arquibancadas, a torcida pelo time e o rival. E o rival faz parte do futebol. E zoar do rival faz parte do jogo.

Eu torço para que os jornalistas moralistas, a imprensa esportiva moralista e todas as pessoas moralistas entendam que há espaço para o humor, e que, principalmente no futebol, são-paulino será sempre bambi, corintiano será sempre bandido, palmeirense será sempre rebaixado e santista será sempre um zero à esquerda. Mas quero que os moralistas entendam que isso é futebol. E que a regra é clara.

Saudades, Vampeta. Saudades da época que o futebol sem mimimi dava aula dentro de campo, fora dele e nas arquibancadas.

About The Author